Novo documentário retrata o drama dos trabalhadores informais e da população de rua, privados do acesso à água e banheiros. Seu alerta: a cidade mercantil despreza as necessidades do corpo. Sua visão: direito ao saneamento precisa ir além do domicílio

 

 

OutrasPalavras

Publicado 04/09/2026 às 17:20 - Atualizado 04/09/2026 às 17:35

Foto: José Cícero/Agência Pública

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Onde uma pessoa que trabalha ou passa o dia nas ruas consegue beber água potável? Onde pode usar um banheiro com segurança, lavar as mãos ou tomar um banho? Perguntas aparentemente simples revelam uma dimensão ainda pouco discutida das políticas de saneamento: o acesso à água e a banheiros fora do domicílio.

É a partir dessa realidade que o ONDAS e o Centro de Estudos em Saneamento Além do Domicílio (CESAD/UFBA), projeto de extensão da Universidade Federal da Bahia, lançaram o documentário “O corpo e a rua: limites da dignidade” e a plataforma “Quero água, quero banheiro”, iniciativas que sensibilizam e ampliam o debate sobre o acesso à água e ao saneamento nos espaços públicos.

O mês de agosto, marcado pela luta da população em situação de rua, é também uma oportunidade para chamar atenção para essa questão. Pessoas em situação de rua e trabalhadores que dependem dos espaços públicos para exercer suas atividades estão entre os grupos mais afetados pela ausência ou precariedade de banheiros, bebedouros, chuveiros e outros equipamentos de apoio.

Na discussão sobre os serviços de água e saneamento ao nível domiciliar, é consolidado que água e saneamento são promotores e cruciais à saúde. Mas, nos espaços públicos, onde a materialização desses serviços não é reconhecida como responsabilidade do setor, o acesso a esses serviços por pessoas que vivem e trabalham nas ruas é totalmente dependente de favores e assistencialismo, trazendo prejuízos evidentes à saúde dessas pessoas. As consequências ultrapassam o desconforto. A impossibilidade de acessar água potável, instalações sanitárias e condições adequadas de higiene pode afetar a saúde, a alimentação, a hidratação, a higiene menstrual e a própria permanência das pessoas no espaço urbano. Para quem vive ou trabalha nas ruas, não se trata de uma necessidade eventual, mas de condições essenciais para viver e exercer atividades cotidianas com dignidade.

Na perspectiva dos Direitos Humanos à Água e ao Saneamento (DHAS), esses serviços não devem ser compreendidos como favores ou benefícios, mas como parte das condições necessárias para a garantia de direitos fundamentais, entre eles o direito à saúde, à cidade e à vida.

O corpo e a rua

O documentário “O corpo e a rua: limites da dignidade” reúne relatos e reflexões de pessoas que vivenciam cotidianamente essa realidade. Trabalhadores, representantes do movimento da população em situação de rua da Bahia e do movimento Elas por Elas. Além disso, representantes do ONDAS, do CESAD e pesquisadores do campo do saneamento discutem as dificuldades de acessar água e banheiros nos espaços públicos.

Ao colocar essas experiências em primeiro plano, o documentário questiona a naturalização de uma situação que, apesar de cotidiana, não deveria ser considerada normal: a ausência de equipamentos básicos de água e saneamento em espaços onde milhares de pessoas vivem, trabalham e circulam diariamente.

Carol, coordenadora do Movimento Elas por Elas, relaciona a saúde e o acesso aos banheiros: “Dignidade pra mim é ter acesso à água potável, é ter acesso a banheiros, é ter acesso a políticas públicas, higiene menstrual (…) A gente perdeu uma companheira porque não teve acesso a banheiro e ficou por mais de 12h trabalhando na rua, todos os dias, e esse acesso era negado”, conta sobre a perda de uma companheira por agravamento de uma infecção urinária que se deu pela baixa ingestão de água relacionada à falta de banheiros nas ruas.

Para o mototaxista Rogério Oliveira, a falta de água e banheiros nas ruas também é uma questão econômica: “A água é comprada, nós temos que consumir três litros de água, que são seis garrafinhas, e eu acho que, pra gente que ganha por conta aqui, seis garrafinhas por dia… Não tem nem como a gente suprir essa necessidade. A gente passa dificuldade de beber água porque não tem condições de comprar.”

Além dos relatos de Carol e Rogério, o documentário está repleto de reflexões de autores importantes nessa discussão. O objetivo final é contribuir para que esses equipamentos sejam reconhecidos simultaneamente como infraestrutura sanitária, instrumento de promoção da saúde e parte das estratégias de adaptação climática, fortalecendo que o debate sobre cidades mais justas, inclusivas e acessíveis entre na agenda pública a partir de um diálogo intersetorial.

Quero água, quero banheiro — um mapa coletivo

A parceria entre o ONDAS e o CESAD/UFBA também resultou na criação de um website que reúne documentário, conteúdos audiovisuais, reportagens e artigos científicos sobre o tema, além de informações sobre as iniciativas do Centro de Estudos. Acesse: saneamentoalemdomicilio.com.br. A iniciativa conta ainda com o perfil no Instagram @cesad.ufba, voltado à comunicação científica e à divulgação das ações do projeto.

Outra frente é a plataforma colaborativa “Quero Água, Quero Banheiro”, que tem uma aba específica no site, criada para mapear banheiros e bebedouros disponíveis nos espaços públicos. A ferramenta permite que qualquer pessoa consulte os locais já identificados e também contribua com novas informações.

Quem conhece um bebedouro, banheiro público, fraldário, chuveiro, ponto de apoio ou outro equipamento importante pode indicar sua localização por meio do formulário disponível na plataforma. As contribuições passam por um processo de validação, tratamento e padronização pela equipe responsável antes de serem publicadas.

A proposta é construir, de forma coletiva, uma rede de informações que ajude as pessoas a encontrar serviços essenciais e, ao mesmo tempo, revele onde eles existem — e onde ainda estão ausentes.


Apoio

Como afirma Hugo Dantas, do Colaboratório Nacional Pop Rua, no documentário: “Só a luta muda a vida; não há possibilidade de fazer isso de forma individual. Problemas complexos não têm respostas simples.” É a partir dessa perspectiva coletiva que o ONDAS e o CESAD/UFBA agradecem a todas as pessoas e instituições que contribuíram, com trabalho, conhecimento e dedicação, para a realização dessas iniciativas.

O documentário, o site e a plataforma são resultado do apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio do Fundo Nacional de Solidariedade, no âmbito do edital 2025/2026.

O documentário foi produzido por Felipe Ralile e Vitória Reis, da Oxean — Marketing e Comunicação, no trabalho de organização de Washington Lima dos Santos, Eliseu Marques e Ana Beatriz Nogueira, com revisão de Fernanda Deister Moreira.

O site e a plataforma foram desenvolvidos por Rômulo Ferreira, da Co.criação, em diálogo e colaboração com os integrantes do CESAD/UFBA.

A coordenação dos projetos foi realizada por Fernanda Deister Moreira e Washington Lima dos Santos, à frente do CESAD/UFBA.

Em nome do CESAD/UFBA, agradecemos ao ONDAS pela parceria, colaboração e compromisso com a construção e ampliação desse debate que nos é tão caro.

Nosso agradecimento também ao Outras Palavras, pelo espaço e pela oportunidade de ampliar esse debate sobre água, saneamento, saúde e dignidade nos espaços públicos.

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Washington Lima dos Santos

 
 

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