Para Marcos Nobre, o julgamento e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados são uma vitória da democracia, reforçada pela responsabilização histórica dos militares por seus crimes, nunca ocorrida antes
Perigo autoritário ainda ronda o país
Embora em crise, bolsonarismo se fortalece com seu “partido digital”, avalia Marcos Nobre

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Para o professor de Filosofia da Unicamp e diretor do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Marcos Nobre, o Brasil não está polarizado, mas dividido entre setores que nem mesmo têm consenso sobre o que é um fato. “O que temos é uma divisão entre duas visões de mundo completamente diferentes e incompatíveis. É diferente de uma disputa democrática em que, no mesmo campo, há um polo magnético em cada ponto”, sintetiza.
Tal divisão deverá se expressar novamente nas chapas formadas para a campanha presidencial de 2026 e nos resultados do pleito. “Imaginar que exista, por exemplo, uma candidatura de centro, a chamada terceira via, não faz sentido, porque mesmo as pessoas que vierem a se apresentar nesses termos na eleição estarão já sinalizando para que lado elas vão no segundo turno”, indica.
Em entrevista ao Jornal da Unicamp, o docente analisa fatos políticos de 2025 e tece ponderações sobre o futuro do campo progressista e do bolsonarismo que, apesar de em crise, tem uma vantagem: o seu partido digital, que não presta contas e é “completamente opaco” em suas formas de funcionamento e de financiamento. “Por isso, não subestimar o bolsonarismo e o risco autoritário que o Brasil corre é muito importante”, alerta.
Para Nobre, o julgamento e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados são uma vitória da democracia, reforçada pela responsabilização histórica dos militares por seus crimes, nunca ocorrida antes. Com a impossibilidade de Bolsonaro concorrer em 2026, avalia, há uma disputa interna ao bolsonarismo e à “direita sem medo” [forma como ele define parte da direita que alia à extrema direita sem medo do que pode ocorrer com a democracia], para a definição da sua chapa para a disputa. “O que não se deve fazer é confundir essa disputa com um enfraquecimento do bolsonarismo”, adverte.
O professor analisa ainda a tentativa de interferência de Donald Trump no julgamento de Bolsonaro, tecendo um panorama sobre a aproximação entre o presidente estadunidense e o ex-presidente do Brasil a partir de 2019. “Trump foi muito importante para legitimar o governo Bolsonaro, no sentido de dizer: esse governo é um governo normal. O governo Trump normalizou o governo Bolsonaro. Mais do que isso: ele foi uma fonte de inspiração.”
As correspondências entre a extrema direita nos dois países expressou-se, por exemplo, na repetição dos ataques a instituições democráticas. Entretanto, ressalta Nobre, enquanto as instituições brasileiras responsabilizaram Bolsonaro por diversos crimes, como tentativa de golpe, nos Estados Unidos não houve ação correspondente em relação às ações de Trump. “Então você vê que o Brasil realmente, pela primeira vez, foi para a vanguarda”. Confira a análise:
Jornal da Unicamp – Qual a sua avaliação sobre a condenação de Bolsonaro e de seus aliados e quais devem ser as repercussões na eleição de 2026?

Marcos Nobre: para professor do IFCH e diretor do Cebrap, aliança da “direita sem medo” com a extrema direita é forte e tem muita ressonância eleitoral
Marcos Nobre – Períodos de instabilidade, em especial de instabilidade institucional, trazem também oportunidades, tanto para o que há de pior como para o que há de melhor. Não conseguimos [no passado] responsabilizar agentes da ditadura militar pelos seus crimes e conseguimos na democracia responsabilizar aqueles que tentaram um golpe de Estado. Isso é inédito na história do país, e é importantíssimo. Ao mesmo tempo, houve um motim dos deputados impedindo instituições democráticas de funcionarem, o que mostra que a instabilidade traz com ela também riscos autoritários relevantes.
É importante ressaltar, no âmbito do julgamento, que me alinho àquelas pessoas que têm muita clareza que os dois artigos – abolição violenta do Estado de Direito e golpe de Estado – são figuras completamente diferentes do ponto de vista jurídico. Um pune a tentativa de autogolpe e a outra pune o golpe de Estado. Uma coisa é um crime quando se está no poder e tenta se manter no poder. A outra é quando se está fora do poder e tenta-se violentamente tomá-lo. É preocupante o movimento de tentar fazer com que esses dois crimes sejam tornados um crime só.
O que acontece com a extrema direita agora? A partir do momento em que Bolsonaro é condenado, e isso era completamente previsível, ele não pode ser candidato, mas não está inteiramente fora do jogo eleitoral. Ele foi declarado inelegível em 2023, mas mantinha sempre a ideia de que iria conseguir reverter. Agora está muito claro que isso está perdido, desencadeando uma disputa dentro do bolsonarismo para quem é que vai ficar com esse espaço. As pessoas olham e falam “eles estão se matando”. Aconteceria a mesma coisa se o Lula dissesse: “eu não serei candidato”. Haveria uma disputa enorme.
Mas não se deve confundir a disputa com um enfraquecimento do bolsonarismo. Essa é a minha preocupação maior, porque nós já subestimamos essa aliança entre o que eu chamo da direita sem medo – porque ela não tem medo de perder a democracia, não tem medo de perder tudo que a gente construiu nos últimos 40 anos – com a extrema direita. Essa aliança é muito forte e tem muita ressonância eleitoral e na sociedade.
Há uma fantasia de que o Lula é imbatível, de que essa eleição de 2026 já está ganha. De outro lado, com a ideia de que o bolsonarismo está em crise e se acabando, surge, por exemplo, a fantasia de que vai existir uma candidatura de centro. Nas pesquisas as pessoas dizem que não querem votar em nenhum dos dois polos, mas o centro não tem correspondência partidária nem eleitoral. Então é uma fantasia imaginar que esse centro amorfo vai se tornar alguma coisa.
JU – O senhor aponta que há uma divisão no Brasil, e não uma polarização. O que isso significa?
Marcos Nobre – O que a gente tem no Brasil não é uma polarização, o que temos é uma divisão entre duas visões de mundo completamente diferentes e incompatíveis. É diferente de uma disputa democrática em que, no mesmo campo, há um polo magnético em cada ponto. Nós temos uma divisão e temos que pensar em termos dessa divisão. A partir dela serão escolhidas as candidaturas. Imaginar que exista, por exemplo, uma candidatura de centro, a chamada terceira via, não faz sentido. Porque mesmo as pessoas que vierem a se apresentar nesses termos na eleição estarão já sinalizando para que lado elas vão no segundo turno.
JU – Quais os rumos dessa disputa entre bolsonarismo e campo progressista?
Marcos Nobre – É um momento de crise do bolsonarismo, mas, como eu ouvi a professora Isabela Kalil dizer em um seminário no Cebrap: ‘o bolsonarismo vive da crise’. Então temos que pensar que o campo político está estruturado assim, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. O campo do bolsonarismo tem uma vantagem competitiva gigantesca em relação ao campo progressista. Para deixar claro o que eu entendo por progressismo: não é a esquerda. Progressismo é uma aliança entre setores da esquerda e setores da direita democrática que não querem se aliar à extrema direita.
O campo progressista tem um partido no seu centro, que é o PT [Partido dos Trabalhadores], um partido com raízes profundas, um partido de massa, que foi construído de maneira exitosa ao longo de décadas. Mas é um partido tradicional. E o bolsonarismo tem um partido digital. Não é um partido institucionalizado, registrado no TSE [Tribunal Superior Eleitoral]. Essa análise faz parte das nossas pesquisas no Centro para a Imaginação Crítica do Cebrap. E o partido digital não tem nenhuma exigência de entrada: você não precisa se filiar ao partido para fazer parte.
A partir de 2022, existe uma aliança entre o partido digital e o partido tradicional, ou entre os partidos tradicionais, porque existe uma aliança preferencial com o PL [Partido Liberal], mas não está restrito a ele, trazendo uma vantagem competitiva enorme, porque o partido tradicional tem os recursos do fundo eleitoral e do fundo partidário. Já o partido digital é completamente opaco. Não sabemos como ele é financiado, como ele opera, etc. Por isso, não subestimar o bolsonarismo e o risco autoritário que o Brasil corre é muito importante.
JU – Em 2025, houve uma tentativa de interferência dos Estados Unidos durante o julgamento de Bolsonaro. Qual a sua avaliação sobre o apoio de Trump ao ex-presidente?
Marcos Nobre – Foi muito importante para a consolidação do bolsonarismo o fato de Trump ser o presidente dos Estados Unidos entre 2017 e 2021, porque não somos uma ilha, e é o mundo que está nessa divisão entre a aliança da direita sem medo com a extrema direita e o campo progressista. Trump foi muito importante para legitimar o governo Bolsonaro, no sentido de dizer: esse governo é um governo normal. O governo Trump normalizou o governo Bolsonaro. Mais do que isso: ele foi uma fonte de inspiração.
Basta a gente pensar qual foi a primeira coisa que o Bolsonaro fez quando ele assumiu: viajar para os Estados Unidos. Ele tem um famoso discurso em um jantar em março de 2019 em que ele diz que não vinha para construir, mas para destruir. Então está muito claro que o projeto, que é uma espécie de manual do ditador atual, é: no primeiro mandato destruir as instituições e no segundo mandato fechar o regime.
Bolsonaro não teve o segundo mandato. Trump também não imediatamente, mas teve agora. Então você vê que o Brasil realmente, pela primeira vez, foi para a vanguarda, porque estava sempre dois anos atrasado em relação aos Estados Unidos. Trump se elege em 2016, Bolsonaro em 2018. Estados Unidos tem o 6 de janeiro de 2021, nós tivemos o 8 de janeiro de 2023. Só que em abril de 2023, Bolsonaro é declarado inelegível, que era o que os Estados Unidos deveriam ter feito [com Trump] e não fizeram. Agora estão correndo um risco gigantesco de uma destruição da democracia sem precedentes naquele país. Se Trump estivesse no poder quando o Bolsonaro tentou o golpe, a gente não sabe muito bem o que poderia ter acontecido.
JU – E qual a sua análise sobre a reaproximação entre Lula e Trump, a partir do momento em que se encontram na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro?
Marcos Nobre – A aproximação entre Trump e Lula tem vários sentidos. Em primeiro lugar, o Trump é um showman. Ele sabe muito bem o que é dar um show, um espetáculo. O discurso e a presença de Lula na ONU foram espetaculares. Vai passar para a história como o grande discurso do Brasil na ONU. Em vista disso, como é um showman, Trump olhou e falou ‘vou tirar uma casquinha’. E ele tirou uma bela casquinha.

Encontro de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Kuala Lampur, Malásia, em outubro deste ano: presidente norte-americano faz jogo duplo
A partir do momento em que falou ‘rolou uma química, a gente se abraçou’ (o que não aconteceu), ele fez o evento ser sobre ele, não sobre o Lula nem sobre o discurso do Lula. É um político muito ordenado. A partir do momento que ele faz isso e tem uma recepção favorável, ele dá uma de bonzinho na frente das câmeras, afirmando que é uma pessoa que não está comprometida com ninguém em princípio, apenas com o interesse dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, coloca para negociar com o Brasil o pior falcão que existe, Marco Rubio, alguém contra qualquer coisa que possa remotamente parecer de esquerda.
Trump faz jogo duplo porque ele percebe também que esse é um momento de crise do bolsonarismo e que nesse momento de crise é melhor deixar o bolsonarismo se entender, resolver o que vai fazer, e quando fizer, ele volta a apoiar.
Então, o Trump ganha dos dois lados. Os bolsonaristas podem ficar chateados, mas o apoio do Trump no ano que vem voltará a eles. Ao mesmo tempo, ele dá uma sinalização que está aberto à conversa [com governo Lula] e coloca para negociar alguém que é um obstáculo à negociação. Esse tipo de sinalização dupla do Trump é muito importante, essa ambivalência dele, porque abre caminhos para ele mesmo. Dependendo do que acontecer, ele consegue ir para lá ou para cá. Ele deixa sempre aberto o caminho, sem nenhum compromisso com a coerência no sentido tradicional, porque justamente o que ele não quer é ter um caminho impedido, bloqueado. Jamais o Trump vai ficar preso sem uma rota de fuga para ele mesmo.
fonte: https://jornal.unicamp.br/edicao/737/perigo-autoritario-ainda-ronda-o-pais/







