A pesquisa PeNSE (MEC/IBGE) mostra aumento de casos e aponta maior incidência de violência contra meninas, além de gravidez precoce e riscos na juventude.
A informação é publicada por ExtraClasse, 25-03-2026.
Cerca de um quarto das adolescentes brasileiras já sofreu algum tipo de violência sexual, como toques, beijos ou exposição de partes íntimas sem consentimento. O dado é da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada nesta quarta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em 2024, 18,5% dos estudantes informaram ter passado por situação em que alguém o tocou, manipulou, beijou ou expôs partes do corpo contra a sua vontade alguma vez na vida. Esse tipo de violência foi mais reportado pelas meninas, visto que 26,0% delas passaram por essa situação de assédio alguma vez na vida. Esse percentual é mais de o dobro do registrado para os meninos (10,9%).
O levantamento ouviu 118.099 estudantes de 13 a 17 anos, matriculados em 4.167 escolas públicas e privadas em todo o país, em 2024.
Na comparação com 2019, o percentual de meninas que relataram esse tipo de violência aumentou 5,9 pontos percentuais. Já os casos de coerção ou intimidação para relações sexuais atingiram 11,7% das estudantes, alta de 2,9 pontos no período.
Apesar de a proporção de meninas vítimas ser, em média, o dobro da registrada entre meninos, o problema atinge ambos os gêneros. Ao todo, mais de 2,2 milhões de estudantes relataram situações de assédio sexual, enquanto 1,1 milhão disseram ter sido forçados a manter relações sexuais.
A pesquisa também mostra que a violência ocorre, majoritariamente, dentro do círculo de convivência das vítimas. Entre os adolescentes que relataram relações forçadas, 26,6% apontaram outros familiares como agressores, 22,6% citaram namorados ou ex-namorados, 16,2% mencionaram amigos e 8,9% relataram pais ou responsáveis.
Quem foram os agressores
O instituto também pediu aos estudantes que apontassem o autor das violências. No caso daqueles que foram submetidos a uma relação forçada, a grande maioria foi violentada por pessoas do seu círculo íntimo:
- 8,9% por pai, padrasto, mãe ou madrasta;
- 26,6% por outros familiares;
- 22,6% por namorados ou ex-namorados;
- 16,2% por amigos.
Vítimas de 13 anos ou menos
A idade das vítimas também chama atenção. Enquanto o assédio sexual é mais frequente entre adolescentes de 16 e 17 anos, a maioria dos casos de relação forçada ocorreu antes dos 14 anos: 66,2% das vítimas tinham 13 anos ou menos.
A pesquisa identificou ainda 121 mil meninas de 13 a 17 anos que já engravidaram, o equivalente a 7,3% daquelas que iniciaram a vida sexual.
O uso de preservativo também preocupa. Apenas 61,7% dos estudantes usaram camisinha na primeira relação sexual, proporção que cai para 57,2% na relação mais recente.
Outros métodos contraceptivos foram relatados por parte dos jovens: 51,1% disseram usar pílula anticoncepcional e 11,7% recorreram à pílula do dia seguinte. Mesmo sendo um método emergencial, quatro em cada dez meninas já utilizaram essa alternativa ao menos uma vez.
Para o IBGE, a separação entre diferentes formas de violência sexual na pesquisa permite identificar situações que muitas vezes não são reconhecidas pelas vítimas, seja por falta de informação ou por fatores sociais e culturais.
Início da vida sexual dos adolescentes
Em comparação com a pesquisa anterior, os dados de 2024 também apontam para um início mais tardio da vida sexual: 30,4% dos estudantes de 13 a 17 anos já tinham vivenciado ao menos uma relação, 5 pontos percentuais a menos do que em 2019.
A proporção cai para 20,7% entre os alunos de 13 a 15 anos, e sobe para 47,5% entre aqueles com 16 e 17 anos.
Por outro lado, considerando apenas aqueles que já iniciaram a vida sexual, 36,8% tiveram a primeira relação com 13 anos de idade ou menos.
No Brasil, a idade mínima para o consentimento legal é 14 anos, e qualquer relação com pessoa menor do que essa idade pode configurar estupro de vulnerável. Entretanto, os dados da pesquisa apontam que a idade média da iniciação sexual foi de 13,3 anos, entre os meninos, e de 14,3 anos, entre as meninas.
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fonte: https://ihu.unisinos.br/664074-um-quarto-das-estudantes-adolescentes-ja-sofreu-violencia-sexual





