Nascida em 31 de março, militante bolchevique e teórica marxista foi a primeira mulher embaixadora da história

 

Estátua em homenagem à Alexandra Kollontai, em seu túmulo, no Cemitério Novodevichy, em Moscou | Crédito: Serguei Monin/Brasil de Fato
 

Em 31 de março de 1872, nascia Alexandra Kollontai, uma das figuras mais marcantes da Revolução Russa. Militante bolchevique, teórica marxista e revolucionária, ela participou ativamente da construção do Estado soviético e entrou para a história como a primeira mulher a ocupar o cargo de embaixadora no mundo.

Após se aproximar do marxismo no final do século 19 e ingressar no Partido Operário Social-Democrata Russo, Alexandra Kollontai iniciou sua militância junto à classe trabalhadora, especialmente entre operárias têxteis. Com a divisão interna da organização, em 1903, alinhou-se posteriormente à ala bolchevique, liderada por Vladimir Lenin.

Após anos de repressão czarista, prisões e exílio na Europa, consolidou sua atuação política e teórica como uma das principais lideranças femininas no processo revolucionário em 1917, destacando-se como uma das principais formuladoras do feminismo socialista ao defender que a libertação das mulheres era indissociável da luta de classes.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a socióloga integrante da Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres, Tica Moreno, afirma que o legado de Kollontai deve ser compreendido, primordialmente, como parte fundamental da construção das mulheres como “sujeito revolucionário”. De acordo com ela, embora Alexandra seja a face mais conhecida e traduzida desse período, sua atuação revela um esforço coletivo. Foi essa insistência em “organizar as mulheres para participar do processo como mulheres” que definiu o papel da militante na transformação da sociedade russa.

Essa atuação já vinha sendo construída antes de 1917, quando Kollontai já escrevia sobre a condição das trabalhadoras, denunciando a dupla jornada e defendendo creches públicas, refeitórios coletivos e políticas que aliviassem o peso do trabalho doméstico. Para Moreno, esse acúmulo ajuda a entender por que, nos primeiros anos da União Soviética, a revolucionária levou essas pautas diretamente para o governo.

Nos primeiros anos da União Soviética, Kollontai assumiu o Comissariado do Povo para o Bem-Estar Social, levando para dentro do governo revolucionário a defesa de políticas concretas voltadas à emancipação feminina. Parte de sua luta estava ligada à garantia de condições reais de autonomia para as mulheres, especialmente por meio do direito ao trabalho e da reorganização das estruturas sociais que sustentavam a desigualdade.

Tica Moreno observa que mesmo em um curto período à frente do comissariado, sua gestão foi guiada pela premissa de que a emancipação feminina exigia “políticas sociais concretas”. Segundo a analista, a estratégia da revolucionária era nítida: garantir a autonomia feminina por meio do “reconhecimento das necessidades das mulheres de trabalho”, conectando a teoria política à realidade cotidiana do operariado.

“A visão que orientava a Kollontai era muito nítida de que era preciso ter políticas sociais, políticas concretas orientadas para garantir a autonomia das mulheres. Isso passava pelo reconhecimento das necessidades das mulheres de trabalho”, declara.

Para Moreno, esse é um dos pontos mais ousados de sua obra, ao integrar dimensões muitas vezes vistas como privadas ao centro da política revolucionária: “essa integração da vida privada, das relações afetivas e sexuais, sempre esteve no debate da Kollontai sobre o que precisa mudar para garantir a igualdade”.

“Então essa integração da dimensão da vida privada, do que é a moral revolucionária, do que são as práticas libertárias de relações afetivas e sexuais sempre esteve integrada no debate da Kollontai sobre o que precisa mudar no processo revolucionário para garantir efetivamente a igualdade entre homens e mulheres. É interessante notar que ela coloca isso para o debate com os bolcheviques dentro do processo revolucionário, não como uma coisa à parte. Isso é um legado muito importante”, acrescentou.

Ao longo de sua trajetória, Alexandra Kollontai combinou reflexão teórica e ação política em diferentes frentes. Além do papel nos primeiros anos da Revolução Russa, ela também marcou a história como pioneira na diplomacia, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo de embaixadora, um feito inédito no cenário internacional da época.

A partir de 1923, passou a representar a União Soviética no exterior, inicialmente na Noruega. Nos anos seguintes, atuou também no México e, sobretudo, na Suécia, onde permaneceu por um longo período e se consolidou como uma negociadora experiente. Durante a Segunda Guerra Mundial, teve papel relevante nas negociações que contribuíram para a saída da Finlândia do conflito, em 1944. Ao longo de mais de três décadas na diplomacia, Kollontai construiu uma reputação sólida em um espaço até então praticamente exclusivo dos homens.

Décadas depois, esse percurso segue sendo reconhecido. Em 2017, no prédio do Ministério das Relações Exteriores, em Moscou, uma placa foi inaugurada em sua homenagem. Na ocasião, o chanceler Serguei Lavrov destacou o peso histórico de sua atuação política e diplomática, em particular, durante a Segunda Guerra Mundial, “liberando forças para outras frentes e salvando a vida de muitos soldados soviéticos”.

“Alexandra Mikhailovna foi uma figura lendária, uma estadista e figura política excepcional, e a primeira mulher a ser embaixadora do nosso país no exterior. É simbólico que estejamos reunidos hoje na véspera do 145º aniversário de seu nascimento. Ela dedicou quase 35 anos ao seu trabalho no Ministério das Relações Exteriores. Seu período mais marcante foram os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial e durante a Grande Guerra Patriótica — a guerra mais sangrenta da história do século 20”, disse Lavrov na ocasião.

Em Moscou, no Cemitério Novodevichy, onde está enterrada, Alexandra Kollontai segue sendo lembrada não apenas como personagem histórica, mas como uma das formuladoras mais radicais do projeto revolucionário soviético. Ela morreu em 9 de março de 1952, aos 79 anos, encerrando uma trajetória que atravessou o czarismo, a revolução e a consolidação do Estado soviético, projetando-a como uma das figuras mais singulares do século 20.

Ao longo de sua trajetória, Alexandra Kollontai defendia que não há transformação social real sem mudar também as relações de gênero e a vida cotidiana. Esta ideia é um dos legados que mantém sua obra atual até hoje.

“A tarefa que fica de articular profundamente, não permitir essa dissociação do que é a luta das mulheres e o programa e o processo revolucionário. Então essa é a primeira coisa. A segunda é essa afirmação da necessidade de ações concretas para transformar as bases materiais da opressão e que isso vem junto com a transformação das possibilidades de exercício da autonomia sobre todas as esferas da nossa vida, incluindo a sexualidade”, completa Tica Moreno.

Editado por: Luís Indriunas
fonte: https://www.brasildefato.com.br/2026/03/31/alexandra-kollontai-conheca-a-trajetoria-da-revolucionaria-que-foi-pioneira-na-diplomacia/