No mês da Mulher, o governo do Brasil, empresários e a sociedade organizaram uma série de debates e oficinas sobre o combate à violência masculina e a promoção da igualdade no país. No Palácio do Planalto, o seminário "Brasil pela Vida das Meninas e Mulheres" apresentou as medidas prioritárias do Pacto Brasil para o Enfrentamento do Feminicídio, uma iniciativa conjunta entre os Três Poderes. No Pará, crimes contra a mulher aumentam 76%
No Pará, crimes contra a mulher aumentam 76%: ‘Violência ambiental e de gênero caminham juntas’
Estado também teve alta de 167,4% nos casos de violência sexual, sendo que 62,8% das vítimas tinham até 17 anos
- São Paulo (SP)
- Beatriz Drague Ramos

Os crimes de violência contra as mulheres cresceram 76% no estado do Pará, entre 2024 e 2025. O aumento foi o maior entre os nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. Os crimes que vão de estupros, feminicídio a ameaças, entre outros, saltaram de 388 para 683 em um ano. O dado é revelado no novo boletim Elas Vivem: a urgência da vida, divulgado nesta sexta-feira (6).
Ao todo o estado da região Norte contabilizou 138 mortes de mulheres (feminicídio, homicídio e transfeminicídio). O Pará também teve alta de 167,4% nos casos de violência sexual como o estupro, sendo que 62,8% das vítimas tinham entre 0 e 17 anos. Os dados são produzidos a partir de um monitoramento diário do que circula nas mídias sobre violência e segurança.
No caso do Pará, a professora do Instituto Federal do Pará e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Mãe Crioula, Taiana Passos, destaca que os crimes de violência contra a mulher possuem relação com os casos de crimes ambientais.
“Os dados estatísticos mostram que Marabá teve 67 casos e Parauapebas teve 66 casos, liderando o número de vítimas de violência contra mulheres no estado. Essas cidades, localizadas no sudeste do Pará, figuram como áreas críticas de expansão de atividades extrativas e do garimpo ilegal”, relata.
Já o avanço da mineração clandestina, inclusive em regiões próximas à Floresta Nacional de Carajás, não traz apenas a degradação ambiental, mas vem acompanhada de outras dinâmicas de violência, diz Passos. “Como a exploração sexual, o tráfico humano e a violência sistêmica contra mulheres e adolescentes, especialmente em contextos de grande circulação de homens.”
A professora alerta ainda para a fragilidade institucional e a ausência do estado para medidas de prevenção e segurança nessas áreas que já sofrem com a degradação ambiental. “Nesse território, a violência ambiental e a violência de gênero frequentemente caminham juntas. Quando o território é violado, a violência acaba sendo reproduzida nos corpos femininos.”
Os feminicídios das quebradeiras de coco babaçu Antônia Ferreira dos Santos, de 53 anos, e Marly Viana Barroso, de 71 anos, refletem o cenário trágico. Ambas foram assassinadas em 3 de novembro de 2025, no município de Novo Repartimento, sudeste do Pará. Os corpos apresentavam marcas de extrema violência e crueldade.
Quebradeiras de Coco Babaçu Antônia Ferreira dos Santos e Marly Viana Barroso, mortas no município de Novo Repartimento, no Pará. | Crédito: Reprodução Miqcb
O caso é apresentado como um exemplo da vulnerabilidade das populações extrativistas e da impunidade que muitas vezes envolve ataques contra mulheres que ocupam papéis de liderança ou independência econômica na região. O crime causou clamor entre movimentos sociais e de mulheres presentes na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). O assassino Danilo Silva confessou o crime e foi preso.
Em reportagem da Amazônia Real, Letícia Santiago de Moraes, vice-presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), afirmou que Antônia e Marly foram assassinadas por defender a floresta.
O Pará é um dos estados com maior índice de assassinatos de mulheres líderes ligadas à pauta socioambiental. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2024, ocorreram 68 ameaças de morte, oito tentativas de assassinato e três assassinatos no estado contra as mulheres.
“É fundamental que haja uma punição muito mais severa e efetiva para os autores da violência, para que a impunidade deixe de ser um fator que perpetue esse ciclo”, diz Taiana Passos lembrando que também é necessário ampliar o amparo às vítimas. “Tanto no campo psicológico quanto em relação à garantia da segurança. Vejo que muitas mulheres permanecem em situação de violência ou deixam de denunciar justamente por medo, pois não se sentem amparadas pelo estado.”
O relatório mostra, por exemplo, que 96,6% das vítimas não tinham medida protetiva. “Isso evidencia a fragilidade da nossa rede de proteção. Outro ponto fundamental é a necessidade de maior rapidez nos processos judiciais”, diz a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Mãe Crioula.
A região possui características sociais, territoriais e econômicas que ajudam a compreender esse crescimento. O estado possui grande extensão territorial e profundas desigualdades regionais, o que agrava a implementação das políticas públicas. “Isso dificulta o acesso das mulheres à rede de proteção e o alcance das políticas públicas, especialmente nos municípios do interior.”
Outro aspecto muito importante é a forte presença de economias extrativas em frentes de expansão econômica, como a mineração, grandes projetos de infraestrutura e disputa fundiária, destaca a professora. “Esse contexto costuma agravar e gerar ambientes de maior violência, vulnerabilidade social e fragilidade das redes comunitárias e de proteção.”
As violências sobre jovens e meninas que possuem entre zero e 17 anos indica que a violência contra meninas e adolescentes é um problema estrutural e profundamente enraizado, diz Taiana. “A infância das nossas crianças está sob ameaça constante.”
No Amazonas, 78% das vítimas tinham até 17 anos
Ainda na região Norte do país o boletim revela índices alarmantes de violência contra as mulheres também no estado do Amazonas, por lá das 353 vítimas de violência sexual, 78,4% tinham de 0 a 17 anos. Com 1.023 casos de violência contra a mulher, o estado fica atrás apenas de São Paulo nas violências, com uma população quase dez vezes menor. Foram 54 mortes de mulheres.
O Amazonas é um Estado que possui uma característica muito singular, avalia a pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança, Tayná Boaes Andrade. “É um estado cortado por rios e que o deslocamento também se dá predominantemente via fluvial. Então, isso dificulta muito um acesso rápido à denúncia, a serviço especializado, a uma rede de proteção e isso implica em uma intervenção que seja rápida e ágil antes que essa violência escale.”
Um outro ponto destacado por ela é a desigualdade socioeconômica, uma vez que muitas mulheres vítimas possuem dependência financeira que as coloca em uma situação de vulnerabilidade. “São fatores estruturais e territoriais que intensificam esse cenário e que têm essa influência na busca por denúncia, na busca por proteção”, diz Andrade.
A ausência de informação sobre etnia e raça das vítimas também é alvo de críticas da pesquisadora. “Isso compromete uma série de planejamentos e a eficiência de política pública, que não consegue chegar em diferentes territórios e contemplar diferentes pessoas, acaba reforçando uma desigualdade histórica.”
Ainda assim, ela ressalta que o Amazonas possui algumas iniciativas muito importantes, como a implementação da Ronda Maria da Penha. “No último ano também acompanhamos algumas operações policiais que tinham o intuito de investigar e responsabilizar os atores de violência contra a mulher, e tudo isso é embasado a partir de uma legislação nacional muito robusta que orienta essas ações, como a Lei Maria da Penha, além do feminicídio”, avalia Taiana Passos.
Para além disso, foram contabilizados 18 casos de tortura, o maior número quando comparado aos outros estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ, SP).
A cada 24h, pelo menos 12 mulheres são vítimas de violência
Ao todo, foram registradas 4.558 mulheres vitimadas nos nove estados pesquisados, representando um aumento de 9% em relação a 2024. Isso significa que a cada 24h, 12 mulheres foram vítimas de violência; 86,7% dos casos não possuem informação racial.
Casos de violência sexual e estupro cresceram 56,6% em 2025, saindo de 602 para 961 casos. O perfil das vítimas revelou uma realidade cruel: 56,5% delas eram crianças e adolescentes de 0 a 17 anos.
De acordo com a entidade o “descaso” com o cenário impacta no aumento de casos de feminicídio (546) e transfeminicídios (7) e encoraja agressores. A pesquisa aponta que 78,5% das violências foram cometidas por companheiros e ex-companheiros.
Diante disso, a denúncia e a eficácia das políticas públicas são comprometidas, “perpetuando o ciclo de impunidade. Sem números refletindo a dimensão fiel da barbárie, as ações de prevenção e acolhimento tornam-se reativas e superficiais, falhando em proteger aquelas que, por estarem invisibilizadas pelo sistema, continuam à mercê dos autores dos crimes.”
Pernambuco e Piauí também registram aumento
De acordo com a Rede de Observatórios da Segurança, entre 2020 e 2025, foram registrados 5.881 casos de violências de gênero no estado de São Paulo. Dos 1.065 casos de violências contabilizados em 2025, 549 foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros.
O estado tem a maior proporção de parceiros e ex-parceiros autores de feminicídio. Foram 228 mortes de mulheres e 191 violências sexuais, além de 553 casos foram de tentativa de feminicídio ou agressão física.
Protesto do Fórum Permanente de Mulheres em 2021 | Crédito: Raphael Alves/TJAM/Arquivo
A violência de gênero em patamares preocupantes também se dá no Rio de Janeiro, apesar da redução de 7,9% (de 633 casos para 583), o estado figura entre os quatro mais violentos para as mulheres. Do total, 181 crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Foram 105 mortes de mulheres, a maioria (21) por faca ou outros objetos cortantes. Além disso, 39,1% das violências contra mulheres foram na capital.
Uma alta de 16,7% foi observada em Pernambuco, os índices de violência contra a mulher subiram de 312 para 364. Com 51,3% dos casos sendo mortes de mulheres, foi a unidade federativa com os maiores números.
No Piauí, 79,3% das vítimas de feminicídio, desconsiderando casos sem informação, foram mortas por parceiros ou ex-parceiros, o estado registrou crescimento de 17,6% nos crimes de violência contra a mulher (de 238 casos para 280). Teresina teve 82 casos, o maior número.
Redução da violência contra a mulher e subnotificação
No Maranhão, houve uma redução considerável de 66,3% dos crimes contra as mulheres. A queda foi de 365 para 123, entretanto a organização aponta que a subnotificação ainda é preocupante. 98,4% dos casos não apresentaram informações raciais. 106 das 123 vítimas (88,3%) não tinham medida protetiva.
Na Bahia a queda foi de 6,6% nos eventos de violência em um ano. Das 240 vítimas, 85% não tiveram identificação racial e 72,9% dos feminicídios foram cometidos por parceiros e ex-parceiros.
A redução de casos de violência de gênero no Ceará foi de 4,8% de 2024 para 2025. Ao todo foram registrados 197 casos no ano passado. No entanto, cresceu em 4,4% o número de mulheres e meninas mortas: 98 vítimas. Desses, 42,6% dos autores do crime eram próximos às vítimas.
Por fim, o estudo enfatiza que o estado deve superar o modelo de resposta imediata, focado apenas no acolhimento de vítimas e em medidas punitivas. Embora ações policiais e judiciais sejam necessárias, elas são insuficientes para atuarem somente após a consumação do dano.
Para a pesquisadora, somente ao transformar a cultura de dominação em uma consciência de responsabilidade será possível, efetivamente, romper a engrenagem que sustenta a violência contra a mulher.
“Além das medidas policiais e judiciais, é necessário investir em políticas estruturais de prevenção, como a educação para igualdade de gênero, o fortalecimento das redes de assistência e a atuação integrada entre a segurança pública, a saúde e a assistência social. Combater a violência contra as mulheres e a violência de gênero exige uma ação contínua e coordenada do estado e da sociedade como um todo”, conclui Taiana Passos.
O que dizem os estados
A reportagem questionou os nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. Foram solicitadas respostas acerca das medidas adotadas pelas gestões estaduais para combater a violência contra as mulheres. A reportagem também solicitou os dados referentes aos tipos de violências abordados na pesquisa.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que o Estado de São Paulo ampliou sua rede de proteção às mulheres vítimas de violência e registrou 118,6 mil pedidos de medida protetiva no ano de 2025, o que representou um aumento de 17,5% em relação a 2024.
Em nota a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará informou que, entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, foram registrados 73 casos de feminicídio, 239 tentativas de feminicídio e 11.621 ocorrências de violência doméstica (lesão corporal) no Estado.
“A Segup destaca que todos os casos de feminicídio foram elucidados, com autores identificados e encaminhados à Justiça. A pasta reforça as ações de prevenção e proteção às mulheres por meio da Delegacia Especializada em Feminicídio, do Alerta Pará Mulher, do aplicativo SOS Maria da Penha, do programa Pró-Mulher Pará, além da Delegacia Virtual e dos totens de atendimento.”
Os demais estados não responderam aos questionamentos até a publicação da reportagem. O espaço está aberto para os posicionamentos.





