"Sua vida era história e a História sua vida. Tímida, pouco afeita à soberba historiadora, não tenho dúvidas de que é a maior historiadora do Amazonas, mas ela não se importaria em carregar esse título. Luiza era uma pesquisadora de exigente coração generoso, esbanjava carisma e seriedade, pois ela era ela, ausente de desejos de grandeza. "

O artigo é de Leonardo Bentes Rodrigues, especialista em Historiografia e Ensino de História, mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas.

Eis o artigo. 

Foi às vésperas do Natal de 2025 que aconteceu nossa última orientação. Estava de passagem por Manaus e insistentemente pedi ao professor Luís Balkar que nos encontrássemos, pois, ao seu lado sempre está Maria Luiza Ugarte Pinheiro. Na ocasião, pedia atualizações sobre o campo da História, empolgadíssima, ela contou sobre as mulheres que mapeava nos processos criminais do século XX e do novo artigo que estava no prelo. Animada em retornar a pesquisa histórica, depois de um período de convalescença, encontrei minha professora entusiasmada, mas, contraditoriamente mais comedida. Na ocasião, eu a venerava mais do que o normal e respeitava a minha surpresa em vê-la assim. Partidas nunca serão compreendidas, são vividas no seu extremo. Tudo pode ser a última oportunidade. Parafraseando Marc Bloch, a morte não pode ser uma “estranha derrota”, mas firmar na esperança de que os escritos serão eternos e as brumas em torno de nossa história pouco a pouco se desvanecerão.

Entre um gole de café e outro, ríamos do professor Balkar, delirando diante de sua aventura atual como romancista: – renunciar ao beletrismo! Recordava um dos manifestos escritos por seu pai contra toda estrutura literária descompromissada. Ali, nos apresentou “Amana”, a protagonista de seu romance, e toda a estrutura do texto. Ela compartilhava a felicidade do seu companheiro mesmo diante de suas dificuldades de saúde. Não revelarei spoiler da escrita ainda nascente da obra do professor historiador, agora romancista, que, da sua poltrona, compartilhava os escritos junto à sua amada companheira.

Maria Luiza sempre renunciou ao beletrismo. Ela era filha de seu tempo, dileta herdeira de E. P. Thompson, e encontrou nele inspiração através da abordagem historiográfica então inovadora da “História vista de baixo”, enquanto, paralelamente, era movida pela história processo num Brasil que se libertava da ditadura. Neste contexto, integrou o importante movimento na década de 80 de revisão da historiografia do Amazonas a partir da fundação do curso de História na Universidade do Amazonas, olhando para os de baixo, lutando nas ruas, atentando para as greves da classe trabalhadora que agitava Manaus naquele presente e aquelas que agitaram a cidade no passado.

Gosto desta passagem de sua obra, A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus: “Por respeito e simpatia, sentimos como um dever, enquanto cidadãos e profissionais da História, restituir à sociedade que esqueceu esses anônimos protagonistas das lutas pela cidadania e justiça social no nosso passado, a narrativa e a compreensão daquelas trajetórias, vozes e desejos”. Aliás, a atualidade da obra está presente no capítulo “Do tema ao problema”, em que optou por caminhar na contramão ao opor a história dos “barões da borracha” por uma “história popular”, dando visibilidade aos “novos heróis”, outrora excluídos.

Sua paixão foi o periodismo no norte do Brasil, os jornais, nos quais mapeou aqueles que carregaram a cidade sobre os ombros: os estivadores. E o porto, seu espaço de pesquisa, o lugar privilegiado por onde a cidade se abria ao mundo. Perspicazmente relatou as tensões do capital materializadas no conflito entre a classe trabalhadora e seus patrões, tecendo suas narrativas de resistências ao não compactuarem com o regime de exploração e ganância. Afinal, como descreveu em sua dedicatória, a obra foi “pensado como ato político de intervenção social e como tal é dedicado à luta dos trabalhadores amazonenses, que saberão trilhar seus próprios rumos”.

O livro é um clássico, justamente por sua capacidade de resistir ao tempo, pela estreita filiação ao passado, proporcionando o prazer da leitura e tornando-se referência essencial para a Historiografia Social. De fato, essa obra atiçou centelhas de esperança em jovens historiadores em todas as Amazônias. A terceira edição já esgotada, desperta a sede de uma quarta ainda porvir, na qual demonstrou em nossa última conversa, a alegria de uma edição renovada e com uma capa ao seu gosto (já que nunca gostou da capa da terceira impressão). Quando essa tocar nas mãos dos leitores, chegará com o ar de saudade e de imortalidade, pois é assim que as historiadoras duram para sempre: escrevendo história.

Sua última devoção foi a historiografia das mulheres. Luiza registrou a imagem da mulher, “suas conquistas e seus papéis sociais, tal como projetada pelos jornais de Manaus”, marcadas por posições conflituosas e contraditórias, ditadas pelas experiências femininas quanto pelas forças sociais com as quais se relacionavam. Para a construção de uma História das Mulheres no Amazonas, olhou para os registros alternativos como as fontes literárias, os registros de viagens e principalmente a crônica jornalística cotidiana.

Essa riqueza de informações presentes na Imprensa possibilitou enxergar, durante a modernização da capital amazonense no início do século XX, o galgar de maiores espaços das mulheres no mercado de trabalho para além do âmbito mais restrito da casa e da família: vendedoras nas lojas de artigos de luxo, secretárias, amanuenses e datilógrafas, sem deixar de olhar para o interior das funções tradicionais como nos serviços domésticos, cozinheiras, passadeiras, arrumadeiras e lavadeiras.

Para as mulheres que a viam fazer história, era mais do que uma inspiração, tratava-se de uma potente historiadora na luta contra o machismo. No seio do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas, sedimentou um fecundo espaço de discussão sobre Gênero ao oferecer a disciplina de História e Historiografia das Mulheres, tomada de coragem diante de um país que se afundava num reacionarismo misógino.

Na última orientação, conversamos sobre nossa admiração mútua acerca dos textos de Susan Sontag e os versos de Cristina Peri Rossi. Lembro que Sontag reivindicava que o escritor deveria tomar partido, estar na linha de frente e defender algo, criticava tenazmente quem a chamava de “autora feminina”, exigindo que toda mulher fosse chamada de “escritora”. Como historiadora feminista, Luiza foi impelida por esses ideais e feita mulher de rupturas instauradoras. Como nos recorda a historiadora Tamily Frota: “Ela sempre tinha os comentários mais certeiros quando o assunto eram as escolhas que as mulheres têm o direito de exercer”.

Sua vida era história e a História sua vida. Tímida, pouco afeita à soberba historiadora, não tenho dúvidas de que é a maior historiadora do Amazonas, mas ela não se importaria em carregar esse título. Luiza era uma pesquisadora de exigente coração generoso, esbanjava carisma e seriedade, pois ela era ela, ausente de desejos de grandeza. Tive a graça de ser seu orientando, um neófito que bateu às portas do Laboratório de História da Imprensa do Amazonas (LHIA) com vontade de escrever história.

LHIA era uma espécie de local de ternura historiográfica, lugar de discussão e de encontro entre as velhas e novas gerações da historiografia, lugar onde, atenta, escutava os bastidores das eleições do Centro Acadêmico de História, como gostava de acompanhar o movimento que reconstruiu a entidade estudantil. Lembro das festinhas improvisadas, especialmente as “festas de ano novo” que realizávamos entre um semestre atrasado e outro, quando da vez que combinamos que todos viriam de branco e somente o professor Balkar aderiu; diante dos seus jocosos comentários, não cansava de gozar da cara do seu companheiro.

Esperávamos ansiosos pelas contribuições deles nessas festas, pois o pouco que recebíamos das bolsas de iniciação científica era o suficiente para comprar apenas um guaraná e fazer sanduíches de sardinha. O seu afeto também se nutria nos salgadinhos e nas belas tortas que fazia questão de compartilhar conosco. A verdade é que eu e outros tantos aprenderam a ser historiadores ao seu lado e dentro do LHIA.

Acredito que a história estava em suas veias desde sempre. Lembro-me de quando, ao visitá-los, ao lado das irmãs Frota (Tamily Frota e Ramily Frota), para avisá-los de que eu entraria para o noviciado da Companhia de Jesus, contou um fato curioso que nunca me havia compartilhado em outras orientações. Luiza revelou que era sobrinha neta do padre Serafim Leite, o jesuíta historiador, referência obrigatória para o estudo da historiografia brasileira.

Diante desse fato, puxou um livro de sua biblioteca (diga-se de passagem, era uma casa feita de livros). Trata-se da obra de Roberto GambiniO espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Ao entregar o exemplar, pediu:

- Faça diferente. Li o livro no retorno a Manaus, às vésperas de emitir os votos na Companhia de Jesus.

Na ausência da despedida física, escrevo este texto com dor e amor, de um aluno cheio de saudades, pois é a escrita que nos dá vida e nos imortalizará. Para você, querida professora, uma morna de Cesária ÉvoraLuiza, kordá, bo bem sem medu / Bem ravela-m es bo segredu / Nos alma é um flor abértu asin / Mi pértu di bo, bo djuntu di mi.

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fonte: https://www.ihu.unisinos.br/662601-historiografia-de-maria-luiza-pinheiro-artigo-de-leonardo-bentes-rodrigues