Em um mundo organizado para controlar corpos, silenciar dissidências e adoecer subjetividades, uma das perguntas mais importantes é: quem define o que é sanidade?

Por Hellen Frida - CFEMEA
Ao longo da história, mulheres que ousaram romper expectativas foram chamadas de histéricas, desequilibradas, descontroladas, agressivas, exageradas, dissimuladas, perigosas, malignas, bruxas, macumbeiras, insanas, intratáveis, loucas. Mulheres que recusaram o silêncio, que desafiaram violências, que viveram seus desejos, que criaram outras formas de existência, que denunciaram injustiças ou simplesmente não quiseram ou não conseguiram sustentar o peso brutal das opressões, foram frequentemente empurradas para os limites da patologização. O patriarcado, o racismo, o capacitismo, a lbtfobia, o capitalismo e os fundamentalismos sempre tiveram profunda intimidade com os manicômios, sejam eles concretos ou simbólicos.
Por isso, marcar o Dia Nacional da Luta Antimanicomial é também afirmar que saúde mental não pode ser separada das condições materiais de vida, das violências estruturais, e sobretudo do direito ao afeto, à arte, ao território, à memória, à liberdade e à dignidade.
Não existe saúde mental possível em uma sociedade fundada e permanentemente mantida na exploração, no racismo, na misoginia, na LGBTfobia, na fome, na precarização e no isolamento. E não existe emancipação sem o direito de criar mundos outros.
A luta antimanicomial brasileira nos ensinou que ninguém se cura sozinho de um mal estar coletivo e que o cuidado também precisa ser coletivo, comunitário, territorial e profundamente humano. E as mulheres, especialmente mulheres negras, periféricas, indígenas, trans e dissidentes, também ensinaram algo fundamental: sobreviver já é uma forma radical de insurgência. E talvez seja justamente aí que arte e cultura se tornam ferramentas concretas de sustentação da vida.
A arte organiza o caos. Dá linguagem ao trauma. Transformar a dor em arte permite elaborar a dor sem transformar pessoas em diagnósticos. Produz pertencimento. Rompe os isolamentos. Faz da memória um território vivo. Recria possibilidades de existência onde antes havia apenas silenciamento. A cultura popular, os tambores, os cortejos, os bordados, a pintura, a escrita, o teatro, o samba, o carnaval, os corpos em performance, os terreiros, os encontros comunitários… tudo isso também é política de saúde mental. Tudo isso também é cuidado.

Dona Ivone Lara, enfermeira, artista
Nesse sentido, a irreverência revolucionária de Ivone Lara e Nise da Silveira segue iluminando caminhos até hoje. Em um período marcado por violência psiquiátrica extrema, eletrochoques e confinamentos desumanizantes, Ivone e Nise ousaram defender afeto, criatividade, escuta e expressão artística como parte central do cuidado em saúde mental. Recusaram a lógica manicomial quando isso parecia impossível. Apostaram na arte produzida pelas pessoas internadas como linguagem legítima da existência humana. Reconheceram humanidade onde o sistema via doenças.
Importante lembrar aqui que diferenciadas pelo marcador social da cor da pele, do fenótipo, da raça, da classe, do lugar de origem e criação, o racismo operou para que apagasse o reconhecimento e a contribuição fundamental dos estudos, observações e experiências profundamente atravessadas pela presença marcante, sensível e criativa de Dona Ivone Lara. Antes de se tornar referência histórica do samba brasileiro, Ivone atuou como enfermeira psiquiátrica e assistente social ao lado de Nise, colaborando nos processos terapêuticos por meio da música, da escuta e da convivência cotidiana com os internos. Há algo profundamente simbólico em difundir que foi uma mulher negra, sambista e suburbana que construiu caminhos mais humanizados dentro de uma estrutura historicamente marcada pela exclusão.

Nise da Silveira, médica psiquiatra
Experiências culturais coletivas continuam sendo tão importantes para reinventar cidades, vínculos e formas de existir. Em Brasília, o Bloco RivoTrio emerge como um desses territórios vivos de invenção coletiva. Muito mais do que um bloco carnavalesco, o RivoTrio constrói um espaço de convivência, irreverência, liberdade e afirmação da diferença. Uma ocupação pública da cidade feita por corpos dissidentes, afetos compartilhados e alegria política. Um lembrete de que a cidade também pode ser lugar de cuidado e pertencimento e não de controle, medo e isolamento.
Nessa mesma pulsação coletiva, o Bloco Filhas da Mãe, construído pelo coletivo Filhas da Mãe, também reafirma o carnaval, a arte e a ocupação da cidade como territórios de autocuidado, cuidado coletivo feminista e reinvenção da vida. Assim como o Rataria Lunática e tantas outras coletividades territoriais espalhadas pelas periferias, ocupações culturais, centros comunitários, terreiros, rodas, praças e ruas do Distrito Federal e do Brasil, esses espaços criam brechas de respiro dentro de um sistema que insiste em nos exaurir.
São redes que acolhem, produzem pertencimento, elaboram lutos, celebram existências dissidentes e transformam a convivência em prática política cotidiana. Penso que nossas vidas seriam mesmo muito mais mesquinhas, insossas e esvaziadas de sentido sem essa insurgência artística, afetiva e insubmissa que insiste em criar beleza com o caos e alegria coletiva como ferramenta de luta em meio às violências estruturais que tentam nos fragmentar todos os dias.
Há uma potência profundamente revolucionária na loucura coletiva que dança, canta, ocupa ruas e desafia normas. Uma loucura feminista que não abaixa a cabeça. Que transforma tudo que alcança. Que faz do encontro uma estratégia de sobrevivência.
E nesse caminho, é impossível não lembrar de Juliana Pacheco, defensora de direitos humanos e militante incansável da luta antimanicomial em Brasília. Juliana construiu pontes entre cuidado, militância, cultura e defesa radical da democracia e da dignidade humana. Sua presença marcou profundamente movimentos sociais, redes de cuidado e construções coletivas no Distrito Federal. Neste ano, completam-se seis anos de sua morte. Sua memória segue viva em cada luta que insiste em afirmar que nenhuma vida é descartável. Lembrar Juliana é também lembrar que a luta antimanicomial não é abstrata. Ela tem rosto, corpo, território, história, afeto e continuidade.
Defender a luta antimanicomial também é defender radicalmente o Sistema Único de Saúde, público, gratuito, de qualidade, universal e territorializado. O SUS é uma das maiores construções coletivas do povo brasileiro e segue sendo linha de sobrevivência para milhões de pessoas, especialmente mulheres pobres, negras, periféricas, indígenas, pessoas com deficiência, população LGBTQIAPN+ e comunidades historicamente vulnerabilizadas. Defender uma política de saúde mental libertária é enfrentar o desmonte dos serviços públicos da lógica privatista, impedir o retorno de práticas manicomiais e a violência institucional. É fortalecer os CAPS, a redução de danos, os consultórios de rua, as equipes multiprofissionais, os vínculos comunitários e as estratégias de cuidado construídas no território. É compreender que saúde mental não pode ser mercadoria, punição ou isolamento. Saúde mental precisa ser direito, convivência, autonomia, liberdade e sustentação da vida.
No 18 de maio, afirmar a luta antimanicomial é recusar as formas de encarceramento da vida. É denunciar a medicalização violenta das existências dissidentes. É enfrentar políticas de morte que transformam sofrimento social em culpa individual. É defender cultura, convivência comunitária, arte e políticas públicas comprometidas com autonomia e dignidade. E também é reivindicar o direito à desobediência. O direito de ser múltipla. O direito de não caber. O direito de reinventar o mundo coletivamente. O direito à loucura criativa, poética, feminista e revolucionária que não aceita ser domesticada.
Sabemos que a vida não cabe em diagnósticos, diagnósticos sérios e bem fundamentados como uma ferramenta de autoconhecimento, compreensão, acolhimento e autonomia é importante, mas o real ‘problema’ nunca foi a ‘loucura das mulheres’. O problema, sistêmico e estruturante, é justamente nossa percepção das violências desse sistema e nossa decisão em não se curvar diante delas.







