
A política tem se tornado, cada vez mais, um espaço hostil para as mulheres. Ao passo que a institucionalidade busca soluções, proteções adicionais e ferramentas para garantir a segurança da atuação feminina, a polarização de fundo conservador e saudosista em relação a direitos passados faz com que muitos homens se sintam confortáveis para ameaçar, expor e perseguir mulheres.
Infelizmente, o ambiente político ainda é profundamente machista. A violência e o preconceito não poupam nem mesmo quem está no campo oposto, provando que a visão deturpada que o machismo causa não tem ideologia e atinge a todas de forma transversal. A esses desafios, somam-se as mazelas de uma sociedade estruturalmente racista, etarista, gordofóbica e homofóbica.
O ambiente político questiona e desqualifica as mulheres o tempo todo com base em trajetória, raça, peso ou orientações sexuais, revelando que os obstáculos enfrentados pelas mulheres são múltiplos e complexos. Por isso, torna-se imprescindível garantir ampla proteção para que o exercício dos direitos políticos aconteça para todas com segurança e liberdade.
Minha vivência institucional me fez perceber como a maternidade é alvo de preconceito, especialmente para mães solo, realidade que enfrentei aos 27 anos, com duas filhas. Foi quando percebi a urgência de erradicar estigmas e de transformar a percepção pública sobre as mulheres. Para que isso ocorra, é fundamental que a sociedade construa espaços mais afetuosos e gentis, capazes de enxergar em cada mãe múltiplas possibilidades de representação. Afinal, o imaginário político não pode continuar restrito ao arquétipo do homem branco, maduro e bem-sucedido.
Há um imenso trabalho de formação a ser executado. O foco da eleitora e do eleitor precisa ser em projetos, em competências e, sobretudo, na compreensão de que a representação social deve contemplar as minorias: mães, empregadas domésticas, micro e pequenas empreendedoras, artistas e fazedoras de cultura. Apenas por meio da educação será possível redimensionar o protagonismo que as mulheres podem exercer nos espaços de poder.
Historicamente moldadas em uma estrutura patriarcal que nos coloca em constante conflito para perpetuar suas próprias bases, aprendi com grandes companheiras a máxima de não falar mal de outras mulheres. Embora nem todas pensem igual, e talvez possuam divergências profundas, é imprescindível ter representatividade feminina na política, ainda que com agendas distintas das nossas.
Pratico o exercício da construção coletiva, de estender a mão e de buscar pautas em comum. A experiência demonstra que existem agendas mínimas capazes de unir as diferentes linhas ideológicas, a começar pelo enfrentamento à violência, tema urgente para todas. Acredito na possibilidade de construir consensos e de adotar a perspectiva de que, diante da escassez da representação feminina na política, precisamos apoiar outras mulheres para que também defendam nossos interesses. Um exemplo é o marco histórico de o Distrito Federal ter eleito três representantes femininas no Senado Federal em 2026. Mesmo com agendas distintas da minha, a presença delas e a convergência em torno de pautas mínimas devem ser celebradas e valorizadas. Acompanharemos os mandatos e iremos cobrá-las pelo cumprimento da agenda mínima de enfrentamento à violência e de defesa dos direitos das mulheres.
Acredito profundamente na construção de um território coletivo. Adotar uma comunicação não violenta é um dos indicativos desse propósito, pois o julgamento direcionado às mulheres costuma ser muito mais severo e invasivo do que o reservado aos homens, recaindo frequentemente sobre questões íntimas e pessoais. Construir uma sociedade mais justa demanda posturas mais acolhedoras entre nós mesmas, e tenho lutado diariamente por isso.
QUEM É RAYSSA TOMAZ
Rayssa Tomaz é jornalista, estrategista de comunicação política e dirigente partidária. Nascida em Brasília e mãe de três filhas, construiu sua trajetória nos poderes Executivo e Legislativo do Distrito Federal e na Câmara dos Deputados, atuando também em redes internacionais como a Global Greens. Atualmente, é Secretária de Comunicação do Partido Verde no Distrito Federal (PV-DF) e dedica-se à formação de novas lideranças e à defesa dos direitos humanos e da sustentabilidade.
CORPOS POLÍTICOS
Recentemente, Rayssa Tomaz integrou a coletânea Corpos Políticos, da editora Blimunda, lançada em setembro de 2026 em Brasília. Seu relato, intitulado "Querida menina que sonha com a política…", redefine a atividade como uma busca diária e ética por consensos, ancorada em suas raízes familiares e na empatia desenvolvida no jornalismo.
No capítulo, a autora detalha sua trajetória institucional no Distrito Federal e no Partido Verde, enfrentando a sobrecarga tripla de trabalho, militância e maternidade, além de expor com coragem a negligência institucional frente à tentativa de feminicídio que sofreu em 2017. Essa vivência transformou-se em um compromisso irredutível com a proteção das mulheres, marcado pelos desafios enfrentados em sua candidatura a deputada federal em 2018.
Enquanto candidatos homens costumam ser avaliados por suas ideias, mulheres frequentemente precisam primeiro superar barreiras relacionadas à aparência, à idade, à maternidade e até mesmo à sua legitimidade para ocupar aquele espaço. Muitas vezes eu percebia que, antes mesmo de ouvir minhas propostas, algumas pessoas já haviam formulado uma opinião sobre mim. Perguntaram várias vezes se eu era filha de alguém, se eu tinha idade para ser candidata, onde estavam meus filhos e, na internet, me sugeriram que eu deveria lavar a louça da minha casa e cuidar dos meus filhos em vez de estar ali. (TOMAZ, 2026, p. 214)
Tomaz defende a sororidade consciente para superar a rivalidade gerada pela escassez de vagas no poder, propondo uma atuação coletiva pautada na solidariedade entre mulheres:
Se você sonha com a política, quero que saiba que liderança não é ocupar o centro da fotografia. Liderança é criar condições para que outras pessoas floresçam. É abrir portas sem esquecer de mantê-las abertas para quem vem depois. É compreender que poder não é um bem escasso que precisa ser protegido, mas uma ferramenta que deve ser compartilhada. (TOMAZ, 2026, p. 220)
CONTATOS E INFORMAÇÕES
Site: editorablimunda.com.br
E-mail:
Instagram: @editorablimunda
Jornalista responsável: Raquel Galvão (@raquelgalvoa / +55 19 98135-3336 /









Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


1989-2026 - Todas as publicações do Cfemea podem ser copiadas e publicadas em outros portais, utilizadas em processos formativos e para o fortalecimento do movimento feminista, pedimos somente que a fonte seja citada. As produções de outras entidades podem requer autorização das mesmas. O Portal do Cfemea foi desenvolvido utilizando o CMS Joomla com licença GNU - software livre.