Quais são os danos particulares da alienação? Ela pode produzir consequências individuais em diferentes dimensões.

Imagem: Izabella Árvai

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

É possível emergir uma participação democrática efetiva. Conselhos de políticas públicas, associações comunitárias, sindicatos, movimentos sociais e organizações civis podem permitir os cidadãos participarem das decisões quando afetam suas vidas

1.

Foi fundamental para a vitória eleitoral de Lula, em 2026, a queda da alienação por parte dos eleitores. Caso contrário, com a perda eleitoral, o dano social seria imenso.

Quais são os danos particulares da alienação? Ela pode produzir consequências individuais em diferentes dimensões.

Perda de autonomia – a pessoa passa a experimentar suas atividades e decisões como subordinadas a forças externas. Redução da capacidade de realização – o trabalho, a educação e outras atividades deixam de ser oportunidades de desenvolvimento e tornam-se apenas obrigações. Sentimento de impotência – o indivíduo passa a acreditar em suas ações não possuírem consequências relevantes.

Enfraquecimento da identidade – a pessoa encontra dificuldade para reconhecer seus próprios valores e objetivos nas atividades que realiza. Dependência de autoridades – pode desenvolver relações nas quais a avaliação crítica é substituída pela obediência.

Entretanto, é importante evitar uma conclusão excessiva. Nem toda pessoa submetida a condições alienantes apresenta sofrimento psicológico, e nem todo sofrimento psicológico resulta de alienação social. O conceito é fundamentalmente filosófico e sociopolítico, não um diagnóstico clínico.

Quanto aos danos sociais, quando a alienação se generaliza, suas consequências podem alcançar as instituições democráticas.

Primeiro, há enfraquecimento da participação política. Cidadãos ao considerarem impossível influenciar decisões públicas podem afastar-se de partidos, associações, sindicatos e eleições. Nesse caso, a alienação pode contribuir para o abstencionismo.

Mas os dois conceitos não são sinônimos: uma pessoa pode deixar de votar por dificuldades materiais, e outra pode votar regularmente sem exercer autonomia crítica.

Depois, há risco de concentração do poder. Quando grande parte da população deixa de participar das decisões, aumenta a influência relativa dos grupos mais organizados e dotados de recursos. A participação formal permanece, mas a distribuição efetiva do poder torna-se desigual.

Abre a vulnerabilidade à manipulação. A dependência de fontes únicas de informação e de autoridades consideradas incontestáveis pode facilitar a circulação de interpretações distorcidas.

Isso não significa todos os integrantes de movimentos de massa serem alienados. A participação coletiva também pode ampliar a consciência política e a capacidade de ação.

2.

Outra possibilidade é a naturalização das desigualdades. A alienação pode contribuir para relações sociais historicamente construídas serem percebidas como inevitáveis. A desigualdade deixa de aparecer como resultado de instituições e escolhas políticas e passa a ser interpretada como consequência natural das diferenças individuais.

Enfim, pode haver reprodução de instituições pouco responsivas. Quando os cidadãos deixam de fiscalizar e contestar decisões, instituições podem adquirir maior autonomia em relação às necessidades da sociedade.

Esse processo pode criar um círculo vicioso: menor participação → menor controle social → maior distanciamento institucional → sentimento de impotência → menor participação. Essa formulação é uma aplicação contemporânea do conceito.

O Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio e outros, não oferece um programa único de superação da a alienação aplicável a todas as sociedades. Na reconstrução da tradição marxista, associa a desalienação a transformações estruturais das relações de produção. Entretanto, a ampliação do conceito para a administração, a cultura e a política permite pensar em estratégias complementares.

A educação crítica propiciadora de autonomia intelectual pode desenvolver a capacidade de distinguir fatos, interpretações, opiniões e interesses. Isso inclui compreender como funcionam o Estado, a economia, os meios de comunicação e as instituições. O objetivo não deve ser substituir uma doutrinação por outra, mas ampliar a autonomia de julgamento.

É possível emergir uma participação democrática efetiva. Conselhos de políticas públicas, associações comunitárias, sindicatos, movimentos sociais e organizações civis podem permitir os cidadãos participarem das decisões quando afetam suas vidas.

A participação precisa produzir efeitos verificáveis. Caso contrário, corre o risco de transformar-se em ritual de legitimação de decisões previamente tomadas.

Outro avanço seria a democratização das relações de trabalho. A superação da alienação do trabalho exige ampliar a capacidade dos trabalhadores de compreender e influenciar os processos produtivos. Isso pode envolver negociação coletiva, participação na gestão, cooperativas, qualificação profissional e maior transparência das decisões empresariais.

É relevante a redução da dependência econômica. Pessoas submetidas à insegurança permanente possuem menos recursos e tempo para exercer autonomia. Políticas de emprego, proteção social, educação e acesso a serviços públicos podem ampliar suas alternativas reais. A autonomia política depende, em parte, de condições materiais de existência.

3.

O pluralismo informacional é essencial. Uma sociedade democrática precisa garantir diversidade de fontes de informação e condições para o debate público.

Isso envolve transparência das plataformas digitais, educação midiática e proteção da liberdade de expressão. A solução não consiste em substituir o controle privado da informação por uma verdade oficial imposta pelo Estado.

Por fim, cabe o controle democrático das instituições. As organizações públicas e privadas devem prestar contas das decisões que afetam a coletividade. Transparência, fiscalização, responsabilização e possibilidade de contestação são instrumentos para reduzir a distância entre instituições e cidadãos.

A aplicação ao Brasil permite estabelecer uma distinção entre três fenômenos frequentemente confundidos.

Conceito Questão central Manifestação possível
Alienação Quem controla as condições da vida social? Perda de autonomia diante de instituições e relações sociais
Abstencionismo Quem participa das eleições? Não comparecimento às urnas
Manipulação política Como se formam determinadas percepções e decisões? Uso deliberado de informações distorcidas para influenciar comportamentos

A alienação pode favorecer o abstencionismo e aumentar a vulnerabilidade à manipulação, mas não determina necessariamente nenhum dos dois. Um trabalhador pode reconhecer criticamente suas condições de exploração e, mesmo assim, abster-se de votar por considerar inadequadas as alternativas eleitorais. Outro pode participar intensamente de campanhas políticas, mas aceitar sem questionamento as orientações de uma liderança.

Por isso, participação não é automaticamente autonomia, assim como abstenção não é automaticamente alienação. Essa distinção é especialmente importante em sociedades polarizadas.

4.

Classificar como alienado todo eleitor de um adversário político é uma maneira de desqualificar sua capacidade de julgamento, sem investigar suas experiências, seus interesses e suas razões. Uma abordagem democrática precisa compreender como as preferências políticas são formadas e quais condições permitem sua revisão crítica.

A principal contribuição do verbete de Cesare Pianciola é mostrar a alienação constituir um fenômeno simultaneamente subjetivo e objetivo. Não se trata apenas de pessoas desconhecerem a realidade ou se deixarem enganar.

Trata-se também de relações sociais nas quais os indivíduos participam de processos sem conseguirem controlar. A alienação pode atingir uma pessoa, um grupo social ou uma sociedade inteira. Pode envolver adesão voluntária, conformismo, dependência econômica ou coerção.

Seus danos não se limitam ao sofrimento individual: podem comprometer a participação democrática, a capacidade de organização coletiva e o controle social das instituições.

A superação exige duas transformações complementares: (i) emancipação intelectual: desenvolver consciência crítica, capacidade de julgamento e liberdade de pensamento; (ii) emancipação social: modificar as condições econômicas, políticas e institucionais capazes de restringirem a autonomia efetiva.

A primeira, isoladamente, pode produzir indivíduos conscientes de sua impotência. A segunda, sem participação e liberdade, pode substituir uma forma de dominação por outra.

Em síntese: alienação é participar de uma realidade social sem conseguir reconhecer-se como sujeito capaz de influenciar sua construção. Emancipação é recuperar, individual e coletivamente, a capacidade de compreender, decidir e transformar as condições da própria existência.

Essa interpretação permite aproximar a tradição filosófica de Jean-Jacques Rousseau, Hegel e Karl Marx de uma concepção contemporânea da democracia: não basta reconhecer formalmente o cidadão como titular de direitos; é necessário criar condições para ele exercer efetivamente sua autonomia.

Combater a alienação política, para enfrentar as pautas-bombas do próximo Congresso Nacional, será fundamental.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

 

fonte: https://aterraeredonda.com.br/alienacao-perdas-e-danos/

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