Guacira Cesar de Oliveira – Cfemea

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Em meio ao debate recente e relevante sobre a exaustiva jornada de trabalho 6 por 1 e celebrando a vitória na Câmara Federal da 5 por 2, as mulheres seguem desejando e lutando para que haja vida além do trabalho. Isso porque a realidade das mulheres nas periferias brasileiras revela uma sobrecarga ainda mais profunda e invisível. Para elas, a discussão vai além do emprego formal: trata-se de uma rotina sem pausas, onde trabalho remunerado e não remunerado se acumulam sem reconhecimento nem proteção.

Sustentar a vida nas periferias tão negras do nosso país é uma responsabilidade que sempre recai desigual e drasticamente sobre as costas das mulheres, porque é muito injusta a partilha do trabalho de cuidado tanto no âmbito familiar como pela sociedade e pelas políticas públicas.

A realidade enfrentada pelas mulheres nesses territórios periféricos expõe uma equação desigual: trabalham mais, acumulam funções e, ainda assim, têm menos acesso a direitos e proteção social. Boa parte das atividades que realizam — como cuidar de crianças, idosos e pessoas doentes, organizar a rotina doméstica e responder a emergências — sequer é reconhecida como trabalho. Sem remuneração e invisível aos olhos do Estado, esse esforço sustenta a vida nas comunidades.

Além do cuidado doméstico e familiar, elas também são responsáveis por manter redes de solidariedade que garantem a sobrevivência coletiva nas periferias. São essas conexões que ajudam a enfrentar crises diárias, da falta de alimentos à violência, do adoecimento aos deslocamentos forçados pelas enchentes. Ainda assim, o suporte comunitário está longe de poder substituir políticas públicas estruturadas.

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A ausência ou insuficiência dessas políticas agrava a situação. Falta de creches, escolas em tempo integral, acesso limitado à saúde, transporte precário e moradia inadequada são problemas recorrentes. Diante disso, as mulheres acabam assumindo funções que deveriam ser garantidas pelo poder público — muitas vezes à custa de jornadas exaustivas e do próprio bem estar.

As políticas fiscais que reduzem investimentos em áreas sociais aprofundam esse cenário. Na prática, cortes em saúde, educação e assistência social transferem custos diretamente para essas mulheres, que passam a arcar, sozinhas, com o que deveria ser uma responsabilidade pública.

O resultado é um ciclo vicioso de sobrecarga e empobrecimento. Sem alternativas, o endividamento se torna uma estratégia de sobrevivência. Para evitar que suas famílias caiam na miséria, muitas recorrem a empréstimos, crédito informal, agiotas ou parcelamentos que comprometem ainda mais sua renda já limitada. Esse processo não é fruto de incapacidade individual de gestão financeira, mas sim de estruturas de exploração que empurram as mulheres para escolhas difíceis e inescapáveis. Tornar essa realidade visível e denunciá-la é um passo essencial para transformá-la.

As mulheres trabalhadoras, negras e periféricas sem uma alternativa senão suprir com as suas próprias forças tanto a ausência das políticas públicas, quanto a omissão parental e a naturalização da exploração do seu trabalho pelo capital, enfrentam obstáculos imensos para evitar que todo o seu grupo familiar despenque sob a linha da miséria… Porque no fim das contas, a redução de gastos nos orçamentos públicos dos municípios, dos estados e da União, o chamado austericídio, se faz mesmo às custas das mulheres.

Diante de eleições gerais, essa pauta se impõe como prioridade. Construir formas mais justas de sustentar a vida exige enfrentar a divisão sexual e racial do trabalho, expor os lucros extraídos de sua invisibilidade e compreender as raízes do endividamento que recai sobre as mulheres nas periferias.