Seminário da Marcha das mulheres negras discute feminismo e raça
CORREIO BRAZILIENSE - 26/11/2026
26/11/2025 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Primeiro seminario internacional - Por um femnismo afrolatinoamericano. - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Por Lara Costa—A Marcha das mulheres negras realizou, na manhã dessa quarta-feira (26/11), o seminário Por um Feminismo Afro-Latino-Amerciano: Herdeiras do Pensamento de Lélia Gonzalez. Essa é a primeira palestra internacional do movimento, que visa discutir sobre o feminismo negro, e ocorreu na Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn).
Segundo Bernadette Esperança, coordenadora nacional da marcha, o objetivo do evento também é trazer o legado da pensadora Lélia Gonzalez dentro do feminismo negro. “Se trata de perpetuar o pensamento, as formulações, a praxis, para nos ajudar a pensar também o nosso tempo, as nossas estratégias de luta, então um pouco disso que a gente pensou”, explica.
Com isso, ela tem a expectativa de que tanto as mediadoras quanto o público troque experiências. “Que possamos nos apropriar também, ter mais subsídios do próprio pensamento da filósofa, pensar as nossas estratégias de organização e luta das mulheres negras, feministas e do racismo.”
Simone Magalhães, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), reforça a discussão do feminismo latino-americano em perspectiva de raça. “O nosso seminário dialoga com a necessidade de conhecermos experiências antirracistas, reforçar a importância da nossa unidade e também de denunciar as formas atuais, que o machismo utiliza para subordinar os corpos das mulheres negras”, relata.
Discussões
Além disso, ela apontou para a grande presença de mulheres negras na agricultura e a participação delas nessa discussão. “Não é um exagero dizer que são as mulheres negras que estão fazendo o debate da possibilidade de uma outra matriz produtiva que garanta uma relação com a natureza, novas relações sociais, em que a gente possa superar a exploração, em que a gente possa superar as opressões, o racismo e o patriarcado.”
Já Aline Costa, do Movimento Unificado Negro (MNU), fez toda a retrospectiva da carreira de Lélia Gonzalez explicando não só a influência do pensamento dela sobre o racismo no Brasil, como também firmou compromisso da organização com povos vítimas de genocídio no mundo todo. “Não é só sobre o território, é sobre a etnia e racismo. Quem luta contra o racismo no Brasil, e em qualquer parte do mundo, tem que denunciar o que acontece na Palestina”, defende.
Marcha das Mulheres Negras reuniu mais de 300 mil pessoas em Brasília por reparação e bem viver
A luta por reparação, bem viver e transformação estrutural do Estado orientou a participação das mulheres negras que ocuparam Brasília nesta terça-feira (25), com a Marcha das Mulheres Negras. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a yalorixá Adriana Ti Omolu, coordenadora nacional de mulheres do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, afirmou que o movimento retornou à capital do país para reafirmar que o Brasil segue operando sob os pilares da escravidão.
“Nossa luta em reparação ao holocausto da escravidão se dá porque nós entendemos que vivemos uma abolição inacabada”, disse. Para ela, a violência estatal contra mulheres, jovens e mães negras continua determinando quem tem direito à vida no Brasil. “A morte é a estratégia principal de extermínio e de subjugação de uma condição em que manter privilégios é acima da vida”, declarou.
Ao comentar a presença de mães que perderam filhos para a polícia, a liderança religiosa se emocionou. “Não é qualquer coisa. Morremos porque os companheiros morrem, morremos cada dia um pouco mais, mas nos recusamos a morrer totalmente”, declarou. Ela relatou cenas vistas ao longo do ato, como a de uma jovem negra com um bebê no colo vestindo uma camiseta pedindo justiça para Sana, vítima de violência obstétrica. “Não nos olham como seres humanos”, lamentou.
A yalorixá explicou que reparação não é um conceito abstrato, mas uma política de redistribuição material e presença negra real nas instituições. “Queremos que os recursos que bancam a riqueza de poucos sejam distribuídos com justiça para todos”, defendeu. Ela lembrou que, enquanto escravocratas receberam indenizações após a abolição, a população negra saiu “com uma mão na frente e outra atrás”.
Uma reparação efetiva, apontou, inclui educação de qualidade, moradia, acesso à saúde sem discriminação e participação política. “Estar nos espaços de poder é um direito nosso. Até o direito de ter direito nos é negado”, criticou.
Para ouvir e assistir
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