- Brasília (DF)
- Brunna Ramos - Brasil de Fato

O texto aprovado no Senado determina que processo seletivos de órgãos públicos devem aumentar de 20% para 30% as cotas raciais| Crédito: Paulo Pinto/ Agência Brasil
Um novo estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPE-DF) revela que somente 26,1% das pessoas negras do Distrito Federal possuem ensino superior completo proporção muito inferior à verificada entre os não negros, dos quais 43,9% concluíram a graduação. O dado apresentado na terceira edição da série Retratos do Distrito Federal 2024 expõe desigualdades estruturais que ainda marcam o acesso à educação, renda, trabalho e serviços públicos entre negros e não negros no território.
A nova edição dos Retratos do Distrito Federal 2024 elaborada pela Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Dipos) do IPEDF, traz um panorama detalhado das condições de vida da população negra utilizando dados atualizados da PDAD-A 2024, pesquisa realizada em domicílios urbanos e rurais das 35 Regiões Administrativas e da Periferia Metropolitana de Brasília.
De acordo com o instituto, o estudo tem como objetivo fornecer informações robustas sobre raça e cor no DF permitindo que gestores públicos, pesquisadores e instituições desenvolvam políticas sociais baseadas em evidências e sensíveis às desigualdades de cor no território.
Segundo o levantamento, 57,8% da população do Distrito Federal se autodeclara negra, sendo 46,17% pardos e 11,65% pretos, totalizando 1.654.127 pessoas. As mulheres negras formam o maior grupo populacional, correspondendo a 29,6% do total do DF.
A distribuição racial segue o tradicional padrão de segregação socioespacial do DF. As regiões de maior renda apresentam menor presença de pessoas negras, como o Lago Sul (21,8%), Sudoeste/Octogonal (32,3%), Lago Norte (34,2%), Park Way (37,2%) e Plano Piloto (37,9%).
Já as maiores concentrações aparecem em áreas periféricas, como Arapoanga (75,4%), Fercal (72,4%), Planaltina (71,2%), São Sebastião (70,9%) e Água Quente (70,8%).
A população negra do DF é predominantemente jovem. O grupo de 15 a 19 anos representa 9,7% entre os negros, enquanto a população não negra aparece mais fortemente nas faixas etárias a partir dos 70 anos. Em relação à religião, 45,6% das pessoas negras se declaram católicas, 30,8% evangélicas e 17,7% afirmam não ter religião.
Mulheres negras e regiões mais vulneráveis
Segundo a PDAD-A 2024, 35,6% das pessoas negras são responsáveis pelo domicílio, percentual mais alto que o observado entre não negros (31,5%). Entre pretos, a taxa de chefia domiciliar é ainda maior, chegando a 39,5%.
Entre os domicílios chefiados por mulheres negras as maiores proporções aparecem em lugares como SCIA/Estrutural (82,3%), Varjão (80,7%) e São Sebastião (79,6%). Homens negros também lideram proporcionalmente mais lares, sendo 36,4% deles são responsáveis pelo domicílio, número superior ao registrado entre homens não negros.

A chefia compartilhada é ligeiramente menor em lares negros (62,9%) do que em lares não negros (65%).
Educação e desigualdade
O recorte educacional revela o maior contraste entre negros e não negros no DF. Embora a população negra seja maioria no território apenas 26,1% das pessoas negras com 18 anos ou mais concluíram o ensino superior. Entre os não negros o índice chega a 43,9% quase o dobro.
Além disso, 14,1% das pessoas negras têm apenas o ensino fundamental incompleto, e 32,4% concluíram o ensino médio. A distribuição escolar evidencia obstáculos históricos e estruturais que limitam o acesso da população negra ao ensino superior.
Outro fator marcante é o tipo de escola frequentada, onde 83% das pessoas negras estudam em instituições públicas contra 63,1% dos não negros. Apenas 17% dos estudantes negros frequentam escolas particulares.
O estudo também revela diferenças no deslocamento até o local de estudo. Entre os negros 41,1% vão a pé à escola; 18,9% usam ônibus; e 20% utilizam automóvel particular indicador diretamente ligado à renda e ao acesso a equipamentos urbanos.
Saúde, mobilidade e condições de vida
A pesquisa mostra que 70,8% das pessoas negras precisaram se deslocar para outra Região Administrativa para acessar serviços de saúde, sinalizando desigualdade na oferta territorial de equipamentos públicos. O percentual é semelhante ao de pessoas não negras (68,6%).
A PDAD-A 2024 incorporou, pela primeira vez, informações de domicílios rurais e da Periferia Metropolitana de Brasília, o que possibilita um diagnóstico mais completo da realidade socioeconômica da população. A classificação racial segue o padrão do IBGE, baseado em autodeclaração e nas categorias branca, preta, parda, amarela e indígena. O estudo utiliza o termo população negra como referência às pessoas pretas e pardas, conforme orienta o Estatuto da Igualdade Racial.





