O Pix é um meio de pagamento público em real, moeda brasileira garantida e controlada pelo Banco Central | Crédito: Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
 

sugestão do ex-deputado Eduardo Bolsonaro de substituir o Pix pelo Zelle, sistema de pagamentos instantâneos controlado por um consórcio de bancos dos Estados Unidos, representa uma ameaça à soberania financeira e digital do Brasil. A avaliação é da cientista política Isabela Rocha, presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics+. Segundo a pesquisadora, a proposta explicita como a relação da família Bolsonaro com a Casa Branca pode colocar o Brasil como mais um instrumento dos interesses estadunidenses.

“A agenda do Eduardo Bolsonaro, assim como a agenda do Flávio e como foi a agenda do próprio Jair, sempre foi uma agenda muito pró-Estados Unidos. Agora, negociar para que deixe de existir um Pix — porque foi isso que o Eduardo Bolsonaro deixou implícito ao sugerir substituir o Pix pelo Zelle — significa colocar informações estratégicas sobre toda a nossa população na mão de infraestruturas estrangeiras e, pior, na mão de bancos estrangeiros”, analisa a pesquisadora.

A declaração de Eduardo Bolsonaro foi feita na quarta-feira (3), durante entrevista à rádio TMC. Na ocasião, Eduardo Bolsonaro defendeu a adoção do Zelle, plataforma criada e operada por instituições financeiras estadunidenses como JPMorgan, Bank of America e Wells Fargo.

Segundo Rocha, a proposta vai além de uma simples troca de sistemas de pagamento e revela um alinhamento político que pode ampliar a dependência brasileira de infraestruturas estrangeiras. Para a pesquisadora, a ofensiva contra o Pix se insere em um contexto mais amplo de pressão dos Estados Unidos sobre tecnologias estratégicas desenvolvidas fora de sua esfera de influência.

“Imagina: a gente mal consegue responsabilizar governos estrangeiros, apesar de existirem diversos mecanismos internacionais para responsabilizar governos quando praticam ações abusivas e injustas no mercado internacional. Banco, não. Não existem mecanismos para regular isso de maneira efetiva. Então, no final das contas, isso é um perigo enorme. Substituir o Pix por uma solução privada e estrangeira significa abrir mão da nossa soberania”, diz.

A sugestão de Eduardo Bolsonaro foi feita dias após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar novas tarifas sobre os produtos brasileiros. Entre as justificativas elencadas para a possível imposição do novo tarifaço, o governo citou o Pix.

O relatório do governo Trump afirmou que o Banco Central privilegiava o Pix, o que prejudicaria empresas do sistema financeiro dos Estados Unidos que operam bandeiras de cartão de crédito no Brasil.

De acordo com Isabela Rocha, há diferenças substanciais entre os dois sistemas, e a plataforma brasileira oferece um serviço mais universal para o usuário.

“O Zelle é uma iniciativa privada. Diferente do Pix, que é uma iniciativa pública. Todos os bancos do Brasil são obrigados a aderir ao Pix. Então, isso, em si, é muito importante. O Zelle, por ser privado, não obriga todos os bancos a aderirem. E acaba que, no final das contas, não é uma solução universal para liquidação de pagamentos”, descreve.

A pesquisadora também citou os riscos à soberania digital. A sugestão de importar um sistema de pagamentos privado dos Estados Unidos bate de frente com um fragilidade institucional e uma carência estrutural do Brasil.

De acordo com estudo feito pelo Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics, o Brasil, apesar de ser uma economia relevante no cenário internacional, registra índices baixos de soberania digital.

Segundo o estudo, o Brasil ocupa a 48ª posição no Índice de Soberania Digital. Além disso, o país tem nota 1 numa escala de 1 a 4 na avaliação sobre capacidade de regulação própria diante das grandes big techs. Um contraste, por exemplo, com países europeus, que adotam um rigoroso sistema de regulação para Meta, Google e outras gigantes do setor.

Diante desse quadro, a proposta do ex-deputado fragiliza ainda mais o país, na avaliação da pesquisadora.

“É um risco gigantesco de nós perdermos o que resta da nossa soberania. Principalmente, da nossa soberania financeira, da nossa capacidade de distribuir os recursos que coletamos e da nossa proteção de dados”, finaliza.