Encontro marca duas décadas de organização das mulheres indígenas e reúne lideranças para discutir demarcação, violência, saúde, educação e cultura

 

 

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Centenas de mulheres dos povos Guarani-Caiouá participam, em Mato Grosso do Sul, de mais uma edição da Kuñangue Aty Guasu – a Grande Assembleia das Mulheres Guarani-Caiouá –, um dos principais espaços de articulação política e cultural dos povos indígenas da região. A edição deste ano possui um significado especial por marcar os 20 anos de existência da organização, criada para fortalecer a participação das mulheres nas decisões políticas de suas comunidades e ampliar a defesa dos direitos territoriais, sociais e culturais dos povos originários.

A assembleia reúne lideranças tradicionais, rezadoras (Nhandesy), jovens, anciãs e representantes de dezenas de aldeias e retomadas indígenas distribuídas pelo estado. Durante vários dias, as participantes discutem temas considerados prioritários para suas comunidades, como a demarcação de terras, a proteção das lideranças, o enfrentamento à violência contra mulheres e crianças, o acesso à saúde e à educação diferenciadas, além da preservação da língua, da espiritualidade e dos conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.

Segundo as organizadoras, a Kuñangue Aty Guasu nasceu da necessidade de criar um espaço próprio para que as mulheres indígenas pudessem participar diretamente das decisões relacionadas ao futuro de seus povos. Embora as assembleias gerais Guarani-Caiouá já existissem há décadas, as lideranças femininas passaram a defender a criação de um fórum específico voltado às questões que afetam as mulheres, sem perder de vista a luta coletiva pela recuperação dos territórios tradicionais.

A questão fundiária continua sendo o principal eixo das discussões. Os povos Guarani-Caiuoá reivindicam a demarcação de áreas consideradas de ocupação tradicional, muitas delas atualmente ocupadas por propriedades rurais destinadas à produção agropecuária. A demora na conclusão dos processos de demarcação tem sido apontada pelas lideranças indígenas como um dos fatores responsáveis pelo aumento dos conflitos no campo, envolvendo disputas judiciais, confrontos com produtores rurais e sucessivas operações de reintegração de posse.

As participantes da assembleia também denunciam que a precariedade territorial repercute diretamente sobre outros aspectos da vida das comunidades. A limitação do acesso às terras tradicionais comprometeria a produção de alimentos, dificultaria a realização de práticas religiosas, reduziria a disponibilidade de recursos naturais e agravaria problemas sociais, como insegurança alimentar, violência e dificuldades de acesso a serviços públicos.

Outro tema recorrente é a situação das mulheres indígenas. A Kuñangue Aty Guasu desenvolve, há vários anos, iniciativas de documentação e monitoramento de casos de violência, produzindo levantamentos sobre agressões físicas, violência sexual, racismo, intolerância religiosa e violações de direitos humanos enfrentadas pelas mulheres Guarani-Caiouá . Esses estudos têm sido utilizados como instrumento de diálogo com órgãos públicos, organismos internacionais e instituições de defesa dos direitos humanos.

As lideranças também manifestam preocupação com ataques contra espaços sagrados e contra as Nhandesy, mulheres responsáveis pela condução de cerimônias religiosas e pela preservação dos conhecimentos espirituais tradicionais. Segundo relatos apresentados em assembleias anteriores, casas de reza foram alvo de incêndios, depredações e outros episódios de intolerância religiosa, situação que motivou pedidos de maior proteção por parte das autoridades públicas.

Além das reivindicações territoriais e da defesa dos direitos das mulheres, a assembleia busca fortalecer a participação política dos povos indígenas em diferentes esferas do Estado brasileiro. As organizadoras defendem maior presença de indígenas em espaços de decisão, argumentando que a formulação de políticas públicas voltadas às comunidades tradicionais depende da participação direta de seus próprios representantes.

Ao completar duas décadas de existência, a Kuñangue Aty Guasu se apresenta como uma das mais importantes organizações de mulheres indígenas do País. Mais do que um espaço de debates, a assembleia tornou-se um instrumento permanente de articulação política, preservação cultural e mobilização em defesa dos direitos dos povos Guarani-Caiouá. Em um ambiente de persistentes conflitos fundiários e desafios sociais enfrentados pelas comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul, o encontro reafirma a importância das mulheres na organização coletiva e na continuidade das lutas por território, autonomia e reconhecimento de seus direitos constitucionais.

fonte: https://causaoperaria.org.br/2026/mulheres-guarani-e-kaiowa-realizam-grande-assembleia-no-ms/

 

 

Mulheres Guarani e Kaiowá denunciam retirada de crianças e violência obstétrica na XIII Kuñangue Aty Guasu

Assembleia reuniu 250 mulheres na TI Nhanderu Marangatu que declararam ainda que falta de demarcação é a raiz dos problemas

Mulheres, jovens e crianças Guarani Kaiowá dançam guaxire no tekoha Laranjeira Ñande Ru II, retratado no documentário Tempo de Guavira. Foto: Lucas Landau

Por Assessoria de Comunicação – Cimi

O tekoha – lugar onde se é – Cedro, na Terra Indígena Nhanderu Marangatu, em Antônio João (MS), recebeu enre os dias 7 e 11 de maio a XIII Kuñangue Aty Guasu, a Grande Assembleia das Mulheres Guarani e Kaiowá. O encontro, que acontece há mais de 19 anos, reuniu Nhandesy (rezadoras), anciãs, lideranças, jovens e crianças de diversos territórios indígenas do Mato Grosso do Sul, incluindo áreas de retomada e em litígio.

O documento final do evento, divulgado nesta semana, endereçado a autoridades como a Presidência da República, ministros, a Presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Secretaria de Estado de Educação do MS, traz um diagnóstico da realidade vivida pelos povos Guarani e Kaiowá na região.

Ao longo de 19 anos, a Kuñangue Aty Guasu consolidou-se como o principal espaço de voz e luta das mulheres Guarani e Kaiowá, que estão na linha de frente da defesa dos territórios, da cultura e dos direitos de seus povos. O documento reforça o compromisso coletivo dessas mulheres com a vida, a memória e a resistência, exigindo do Estado brasileiro ações concretas para além das palavras.

A perda dos territórios sagrados, os tekoha, foi apontada como a raiz da crise existencial que assola o povo Guarani e Kaiowá, levando a um aumento alarmante dos casos de suicídio. A frase de uma das lideranças resume o sentimento coletivo: “Karai kuera, ndaha’ei ojapo yvy oñepyru jave nhande Ypy”. Em português: “os não indígenas não fizeram a terra quando surgiu o mundo. Por isso eles não podem chamar a terra tradicional como terra deles”.

“O branco não sabe cuidar bem do corpo da mulher durante o parto; faz a mulher sentir mais dor durante o trabalho de parto”

A abertura da assembleia foi marcada por uma homenagem a Léia Aquino, uma das fundadoras do movimento, que faleceu em 2025, e pelo reconhecimento da trajetória de resistência das retomadas Cedro e Bananal. Durante os quatro dias de plenárias, formações e rodas de conversa, as mulheres denunciaram uma situação que classificam como “emergência humanitária”, especialmente no que diz respeito à falta de água potável nos territórios, e cobraram atuação urgente da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e dos municípios.

Mulheres Guarani e Kaiowá protestam em frente ao STF. Foto: Guilherme Cavalli/Cimi

Saúde e violência obstétrica: “o branco não sabe cuidar do corpo da mulher”

As lideranças denunciaram a precariedade do atendimento, a falta de profissionais e a ausência de respeito às especificidades culturais. A violência obstétrica e a discriminação sofrida por mulheres indígenas em hospitais teve destaque. A parteira Ramona Kaiowá e Guarani, do território Jaguapiré, relatou: “o branco não sabe cuidar bem do corpo da mulher durante o parto; faz a mulher sentir mais dor durante o trabalho de parto”.

As mulheres exigiram a retomada da área de saúde mental nos territórios, a construção de um Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) específico para os povos Guarani e Kaiowá no MS e mais espaço para profissionais indígenas, especialmente mulheres, ocuparem cargos na saúde. O Encontro das Parteiras Tradicionais (Kuña Mba’ekua’áva), realizado durante a assembleia, reafirmou as parteiras como guardiãs da vida e dos saberes ancestrais, fundamentais para a saúde integral das comunidades.

Mulheres e criança Guarani e Kaiowá do tekoha Pyelito Kue, novembro de 2023. Foto: Tiago Miotto/Cimi

Educação, infância e a luta pela autonomia

Na área da educação, as reivindicações se concentraram na necessidade de fortalecer uma educação escolar indígena diferenciada, intercultural e bilíngue. As lideranças exigiram a criação de concursos e processos seletivos específicos para professores indígenas, com consulta prévia às comunidades na elaboração dos editais. A falta de fiscalização do Ministério Público e a exclusão de profissionais indígenas das contratações anuais também foram alvo de críticas. A assembleia reforçou que a educação indígena deve ser construída com participação comunitária, valorizando a língua materna e os conhecimentos tradicionais.

Um dos temas mais delicados abordados foi o protocolo de adoção de crianças indígenas. As mulheres denunciaram que os Conselhos Tutelares frequentemente retiram crianças de suas famílias sem considerar o modo de cuidado tradicional Guarani e Kaiowá, no qual avós, mães e tias exercem papel central. A assembleia reivindicou a construção de um protocolo específico, com a participação das organizações indígenas, que garanta a realização de exames técnicos antropológicos em todos os processos de destituição do poder familiar ou acolhimento institucional, conforme prevê a Resolução nº 454 do Conselho Nacional de Justiça.

A juventude Guarani e Kaiowá é engajada nas lutas do povo renovando as pautas de atenção das organizações sociais. Foto: Divulgação/Cimi-MS

Juventude LGBTQIA+ e o “genocídio invisível”

A plenária da juventude, por meio da Juventude Indígena Diversidade Kaiowá e Guarani (JUIND), trouxe à tona dados alarmantes sobre a violência contra jovens LGBTQIA+ indígenas. Foi denunciado que, em 2023, houve 37 suicídios de indígenas no MS, sendo três em uma única semana, e que a população LGBTQIA+ é desproporcionalmente afetada.

Foram lembrados os casos de assassinatos de jovens como Gabriel Rodrigues, Timi Vilhalva e Cleijomar Rodrigues Vasques em 2022, cujas mortes violentas foram registradas como “acidentes automobilísticos”. A assembleia exige respeito à diversidade e a implementação de políticas públicas efetivas para proteger essa população.

fonte: https://cimi.org.br/2026/07/mulheres-guarani-kaiowa-kunangue-aty-guasu/

 

Juventude Guarani Kaiowá e Nhandeva realiza XI Encontro da Retomada Aty Jovem tratando de saúde mental e proteção

A atividade reúne cerca de 600 participantes entre os dias 20 e 24 de julho, na Aldeia Pirajuí, em Paranhos, e busca constituição de uma rede

Encontro reuniu jovens Guarani e Kaiowá e Nhandeva para a criação de uma rede de cuidados e proteção. Foto: Andréa Moratelli/Cimi-MS

Por Andréa Moratelli, Cimi Regional Mato Grosso do Sul – Equipe Dourados
 

A juventude Guarani e Kaiowá e Nhandeva realiza, entre os dias 20 e 24 de julho de 2026, o XI Encontro da Retomada Aty Jovem (RAJ). A atividade acontece na Aldeia Pirajuí, no município de Paranhos (MS), e reúne aproximadamente 600 participantes de diversas aldeias de Mato Grosso do Sul, além de convidados dos estados do Paraná e de São Paulo.

Com o lema “Nossa terra é nossa memória, nossa resistência é nosso futuro”, o encontro tem como objetivo fortalecer a organização da juventude indígena, reafirmando a luta pelos territórios, a valorização da cultura, da ancestralidade e da resistência dos povos Guarani e Kaiowá e Nhandeva. Ao longo da programação, serão realizados debates, oficinas e espaços de articulação política voltados à defesa dos direitos indígenas e à permanência das novas gerações em seus territórios.

A abertura do encontro ocorreu na segunda-feira (20), com a presença de autoridades locais, regionais, estaduais e nacionais. Participaram representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Programa Bem Viver, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), além de outras instituições parceiras.

Nesta terça-feira (21), a programação aborda temas como a organização política e comunitária, o enfrentamento ao racismo, as diferentes formas de violência e os processos de criminalização dos povos indígenas. Os debates buscam fortalecer estratégias coletivas de resistência e proteção dos territórios. Ao longo do dia, também são realizadas oficinas voltadas à valorização da cultura e dos saberes tradicionais dos povos indígenas.

Na quarta-feira (22), as atividades terão como foco a saúde mental e a proteção da vida, com discussões para a construção da Rede de Proteção Nhangareko, além da realização da assembleia de constituição da rede. Já na quinta-feira (23), a programação será dedicada às reflexões sobre cultura, ancestralidade e espiritualidade, por meio de rodas de conversa, mesas de debate e oficinas de cantos tradicionais, fortalecendo os conhecimentos e práticas dos povos Guarani e Kaiowá e Nhandeva.

fonte: https://cimi.org.br/2026/07/juventude-guarani-kaiowa-nhandeva-raj/