A experiência do Laboratório Organizacional Feminista para Sustentação da Vida no Distrito Federal e Entorno promove encontros de mulheres nos acampamentos e assentamentos da reforma agrária para construção de alternativas coletivas às crises socioambientais no bioma cerrado

Laura Lyrio Gonçalves e Suely Nunes Magalhães - Cfemea

 

Em junho, iniciamos mais um passo na experiência do Laboratório Organizacional Feminista para Sustentação da Vida no território do Distrito Federal e Entorno, construído em parceria pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Retomamos juntas os encontros entre mulheres nos acampamentos de luta pela terra e nos assentamentos de reforma agrária, em uma nova etapa de acompanhamento (pós-laboratório) que irá até dezembro deste ano.

Assim, nos desafiamos aqui a refletir sobre as questões ambientais e climáticas a partir de nossa experiência concreta e coletiva de construção das rodas feministas antirracistas, camponesas, populares, de mulheres no bioma Cerrado, por meio das quais estamos cultivando Territórios de Luta, Cuidado e Sustentação da Vida, com muita dedicação e afeto a cada encontro. Dia 05 de junho foi o Dia Mundial do Meio Ambiente e dia 17 de julho será o Dia de Proteção às Florestas e biomas, portanto, à luz do significado destas datas, tecemos este relato.

Tempo, corpos-territórios e organização coletiva

Plantando cooperação feminista, fomos combinando as datas e locais, pegando estradas de chão vermelho, se animando com cada uma das mulheres que encontramos. Fomos construindo e valorizando coletivamente saberes e práticas feministas e agroecológicas, compartilhando cores e sabores da sociobiodiversidade dos quintais produtivos no cerrado de onde advém galinha caipira com pequis, abóboras, mexericas, cará-moelas, ovos caipiras, chuchus, açafrão, cheiro verde e muito mais. Dialogamos sobre estratégias e planos para ativar o imaginário coletivo da cooperação feminista para o bem viver das mulheres, se desafiando a fomentar: empreendimentos coletivos, solidários e autogestionários voltados à geração de renda; melhores condições para coletivizar os trabalhos produtivo e reprodutivo com direitos e políticas públicas; autocuidado e cuidado coletivo; participação política das mulheres em um ano de eleições no qual a defesa da democracia, da soberania e da autodeterminação dos povos é fundamental tanto no Brasil quanto para ressoar perspectivas libertadoras na América Latina e no Sul global.

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Fotos: Acampamento Keno, em Água Fria de Goiás (GO). Junho/2026.

Em meio às floradas dos ipês coloridos, às visitas das araras-azuis que avoam em direção aos buritis ao redor das plenárias, às colheitas do milho e às ornamentações das festas juninas que expressam a cultura popular e camponesa, nos reunimos. Estivemos juntas em territórios das periferias rurais em regiões do bioma cerrado e, nesse processo nos desafiamos a se contrapor à “falta do tempo” para nós mesmas e nossos coletivos. Nesta confluência de construir novas relações no tempo e no espaço é que a experiência laboratorial feminista e coletiva segue: mobilizando energias para lidar com sentimentos de insegurança e vergonha que tantas vezes nos silenciam e paralisam; promovendo autotransformação e autonomia; tecendo consciência crítica e organizativa com novos tipos de relações, vínculos e comportamentos solidários; ressignificando cartografias para frutificar territórios de luta, cuidado e sustentação da vida contra as lógicas de dominação que são individualistas, neoliberais e fundamentalistas religiosas e que expropriam nossos corpos-territórios.

É que a “falta de tempo” que nós mulheres vivenciamos, assim como a escassez de terra, moradia, saúde, alimentos, renda, direitos, entre outras, não tem nada de natural. A falta e a escassez têm sido socialmente criadas e impostas pela lógica acelerada da exploração da força de trabalho e da natureza, à serviço da acumulação privada de lucros nesta sociabilidade patriarcal, racista, capitalista que é também atravessada pelas guerras e autoritarismos imperialistas.

Inclusão digital e democratização da tecnologia

Em nossos encontros, identificamos também os desafios do letramento e ocupação digital no contexto em que se precisa avançar na democratização do acesso à tecnologia e à internet, para melhores condições de trabalho no campo e de acesso ás políticas públicas. Enquanto a tecnologia permanece sob domínio das corporações multinacionais e das big techs, ela é utilizada à serviço da acumulação de lucros por meio da degradação da natureza e da desumanização das mulheres, suas comunidades e povos, o que também burocratiza o acesso à proteção social causando exclusão. Por meio de drones e acompanhamento via satélite, os setores do agronegócio avançam na grilagem de terras e na pulverização de agrotóxicos. Também por meio de fake news e processos de desinformação, estas elites operam contra a democracia e os direitos das mulheres enquanto temos corrido, adoecidas, para acompanhar o tempo acelerado das novas tecnologias de informação e comunicação.

Podem as sementes de novas relações interpessoais e sociais, plantadas nos territórios locais, conseguir transformar cotidianos de mulheres e os contextos políticos nacional, latino-americano e global?

Acreditando neste potencial transformador dos coletivos de mulheres, por meio de atividades de informática, de ocupação digital, de construção de projetos econômicos e de planos de trabalho coletivos, de rodas de autocuidado e cuidado coletivo buscamos desenvolver autonomia e nos apropriar da tecnologia que tem sido negada, sobretudo, às mulheres do campo, florestas e águas; também nos reapropriando de nossos próprios tempos e territórios em disputa.

Crises interligadas e impactos desiguais

Na sociabilidade em que vivemos, a imbricação de crises tem sido uma característica marcante nestas primeiras décadas do século XXI, em que vemos não apenas as emergências e crises climáticas e socioambientais, mas, sua articulação com crise econômica, crise política, crise sanitária, entre outras. Todas estas dimensões revelam que o contexto de crises é profundo, estrutural e se reporta ao modelo capitalista, racista e patriarcal de sociedade, predatório e insustentável, que precisa ser superado, posto que interrompe vidas e, simultaneamente, limita as condições de luta social em defesa das vidas em risco.

Identificamos expressões, cada vez mais recorrentes, das crises interligadas quando nos deparamos com tantas vidas devastadas por tempestades intensas e enchentes (como na tragédia de 2024 no Rio Grande do Sul, afetando os biomas Pampa e Mata Atlântica), por temperaturas extremas, secas, queimadas e desmatamentos (como nos incêndios criminosos nos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônia), por contaminações e desmoronamentos de barragens (como o crime da Samarco, Vale e BHP Billiton na bacia do Rio Doce na Mata Atlântica). Também, quando nos deparamos com informações sobre o bioma cerrado no qual vivemos: Consoante dados do MapBiomas Brasil, em 2024, o cerrado foi então o bioma com maior perda de vegetação nativa, com 652 mil hectares desmatados, que representavam 52% do desmatamento registrado no país - sendo a região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) a de maior devastação.

Também são expressões das crises socioambientais quando nos encontramos com as dificuldades de acesso à terra e moradias dignas, com o aumento dos casos de violências domésticas, feminicídios e violências, com a precarização das condições de acesso à seguridade social por meio da captura privada dos orçamentos das políticas sociais, com os adoecimentos e endividamentos causados por relações de trabalho que negligenciam direitos e vulnerabilizam a população à ofensiva crescente das plataformas de apostas online, entre outras relações que precarizam as condições de vida.

Os adoecimentos e endividamentos decorrentes de relações de trabalho que negligenciam direitos não são apenas efeitos isolados: tornam-se parte de um processo de naturalização da precariedade. A população menos favorecida, submetida a condições frágeis de sobrevivência, passa a aceitar como inevitável a exploração cotidiana. Nesse cenário, a classe dominante se apropria do senso comum reforçando mecanismos de controle e dependência. Um exemplo evidente é a ofensiva crescente das plataformas de apostas online, que se apresentam como oportunidade de ganho rápido, mas na prática aprofundam a vulnerabilidade financeira e emocional. Assim, práticas que precarizam a vida são incorporadas como “alternativas” ou “soluções” para quem já está em situação de desproteção, perpetuando um ciclo de exploração.

Tais crises atingem, sobretudo, os que vivenciam situações sociais de pobreza, desigualdades e violação de direitos humanos onde a presença do Estado ainda não garante a infraestrutura e as políticas públicas necessárias à vida digna e livre de violências. Assim, as classes e grupos sociais experienciam de formas desiguais as consequências das crises estruturais - conforme nos ensinam as perspectivas feministas interseccionais e críticas – e, portanto, falar sobre as questões ambientais e climáticas requer falar sobre justiça climática e socioambiental, sobre justiça racial e de gênero e sobre a centralidade da proteção social e dos direitos das mulheres, comunidades e povos das periferias rurais e urbanas que têm sustentado a vida em contextos extremos.

Estamos falando de uma realidade social na qual o ritmo do capital e do extrativismo agrário sobre os biomas tem sido cada vez mais competitivo, rápido e intenso e, é neste cenário desafiador que as mulheres dos campos, florestas, águas e periferias urbanas garantem uma contribuição fundamental na sustentação de limites, fronteiras e enfrentamentos à degradação do meio ambiente, de seus meios de vida, de suas culturas e direitos.

Em uma perspectiva crítica integrada, reflete-se que as vidas das mulheres, os vínculos comunitários e coletivos e os biomas são simultaneamente ameaçados no âmbito de uma sociabilidade de dominação na qual há hegemonia dos interesses das elites latifundiárias, do agronegócio e dos grandes monopólios corporativos multinacionais. Trata-se de interesses na privatização dos bens comuns e dos serviços públicos visando a concentração e acumulação de lucros. Por meio da mercantilização e financeirização da terra, das sementes, dos alimentos e dos bens comuns, as relações de poder capitalistas e imperialistas transformam em negócios e commodities tudo o que constitui os meios de vida das mulheres e suas comunidades, portanto, cerceando de forma crescente: as autonomias das pessoas, a autodeterminação dos povos e as soberanias dos países latino-americanos e do Sul global.

Não menos relevante, tais elites articulam a continuidade e ampliação de sua hegemonia por meio da violência nos territórios, por meio do fomento à cultura do ódio nos ambientes virtuais e por meio da aliança com outros setores conservadores e fundamentalistas religiosos nos espaços políticos, implicando desde a sub-representação política, desmoralização e criminalização de movimentos e organizações populares e feministas até impondo retrocessos em leis e direitos no âmbito da justiça reprodutiva, do enfrentamento às violências contra mulheres e meninas e da paridade. Identificamos juntas em nossas rodas de conversa que, neste cenário, conceitos como “sustentabilidade” e “cuidado” estão em disputa pelas falsas soluções de setores conservadores e fundamentalistas que fomentam a lógica exploratória crescente de um capitalismo e de um imperialismo que se propagandeia como “verde” enquanto bombardeia e saqueia minérios e fontes de energia dos territórios dos povos. Reproduzindo relações de poder autoritárias, neocoloniais e de dependência, o capitalismo e o imperialismo verde seguem também silenciando sobre a necessidade de pôr fim ao patriarcado do salário e da terra, bem como ao uso de agrotóxicos e transgênicos e ao avanço das fronteiras do agronegócio; seguem silenciando sobre a insuficiente solidariedade e ajuda humanitária aos povos cubano, venezuelano e palestino e sobre a urgência de pôr fim ao bloqueio econômico em Cuba, ao sequestro do presidente da Venezuela e ao genocídio na Palestina.

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Foto: Acampamento Pepe Mujica, em Brazlândia (DF). Junho/2026.

Mulheres na linha de frente da defesa dos territórios

Por isso falamos em sustentação da vida. O que estamos cultivando juntas se propõe a constituir alternativas aos contextos de imbricação de crises que nos oprimem, silenciam e violentam, portanto, articulando lutas feministas, antirracistas, camponesas, populares, agroecológicas: em defesa da autonomia e dos corpos-territórios das mulheres em seus biomas; em defesa da soberania alimentar e da autodeterminação dos povos e comunidades em seus territórios; em defesa das alternativas coletivas de organização, luta e comunicação popular; em defesa de novas práticas políticas feministas de autocuidado e cuidado coletivo.

Portanto, para além de ver esta realidade social em crise, avaliamos e decidimos juntas que esta não é a sociedade que queremos, partindo para uma ação transformadora que floresce do cotidiano de muitas mulheres, suas famílias e comunidades. As mulheres enquanto sujeitas de direitos e sujeitas da história estão em movimento, ousando criar alternativas coletivas para seu bem viver, para ampliar cada vez mais sua participação política, para avançar na conquista de políticas e direitos, para enfrentar retrocessos em nossa cidadania.

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Fotos: Acampamento Ana Primavesi, em Brazlãndia (DF). Junho/2026.