Protestos e marcha marcam o maior evento paralelo à COP30: carta com críticas à extrema direita e ao modelo capitalista é entregue ao presidente da Conferência do Clima

Por Liana Melo | ODS 13
Publicada em 17 de novembro de 2025 - 09:55  
#Colabora

Multidão no encerramento da Cúpula dos Povos: cobrança de protagonismo e participação efetiva nas decisões da COP30 (Foto; InfoAmazônia)
 

(Belém, Pará) – O presidente Lula não participou presencialmente da cerimônia de encerramento da Cúpula dos Povos Rumo à COP30 neste domingo (16/11) em Belém, mas escreveu uma mensagem que foi lida pela ministra Marina Silva, do Meio Ambiente.

Ao afirmar que Conferência do Clima “não seria viável sem a participação de vocês – essa extraordinária concentração de pessoas que acreditam que outro mundo é possível e necessário” fechou com chave de ouro uma semana repleta de protestos, que transformou as ruas de Belém em um levante popular.

Em sua mensagem, Lula reforçou que o combate às mudanças do clima “precisa da mobilização e contribuição de toda a sociedade, e não só dos governos”. O presidente retornará a Belém, nesta quarta (19/11), quando irá se encontrar com Antonio Guterrez, secretário-geral das Nações Unidas.

 

Essa semana começa o período mais crítica da COP, e também o mais político.  É quando começam a chegar os ministros para coordenar as articulações finais sobre pontos ainda sem consenso, como, por exemplo, os indicadores da meta global de adaptação e o programa de transição justa. “Não podemos sair de Belém sem decisões sobre a transição energética, o fim do desmatamento e a mobilização de recursos”, discursou Marina, após ler a carta encaminhada por Lula.

Neste domingo (16/11), foi entregue ao presidente da COP30, André Corrêa do Lago, a Carta Política da Cúpula dos Povos, um documento que sintetiza as demandas globais por justiça climática, demarcação de territórios, transição energética justa e participação popular nas decisões da COP30.

Há muito tempo venho alertando sobre aquilo que hoje estamos vivendo. Os rios estão secando, a chuva não vem, o ar está cada vez mais difícil de respirar. Se não tivermos consciência de defender o que resta dessa Terra, haverá um caos muito grande

Cacique Raoni
Líder indígena

O documento destaca que o processo da Cúpula dos Povos reuniu mais de 70 mil pessoas: :indígenas, camponeses, quilombolas, extrativistas, marisqueiras, mulheres, comunidade LGBTQIAPN+, jovens, afrodescendentes, pessoas idosas, entre outros movimentos. “Assumimos a tarefa de construir um mundo justo e democrático, com bem viver para todas e todos. Somos a unidade na diversidade”, destaca o texto.


Representante da Cúpula dos Povos entrega carta ao presidente da COP30, André Corrêa do Lago: “O avanço da extrema direita, do fascismo e das guerras ao redor do mundo exacerba a crise climática e a exploração da natureza e dos povos” (Foto: Tânia Rego / Agência Brasil)

A carta Cúpula dos Povos alerta para a conjuntura geopolítica que agrava a emergência climática. “O avanço da extrema direita, do fascismo e das guerras ao redor do mundo exacerba a crise climática e a exploração da natureza e dos povos”, afirma o documento, criticando ainda a ação dos EUA na América Latina. “O imperialismo segue ameaçando a soberania dos povos, criminalizando movimentos sociais e legitimando intervenções que historicamente serviram aos interesses privados na região”.

A carta lista 15 propostas, entre elas, participação e protagonismo dos povos na construção de soluções climáticas, reconhecendo os saberes ancestrais; demarcação e proteção das terras e territórios indígenas e de outros povos e comunidades locais, combate ao racismo ambiental e a construção de cidades justas e periferias vivas, reparação das perdas e danos impostos aos povos por “projetos de investimento destrutivos”; fim da exploração de combustíveis fósseis; e transição justa, soberana e popular.

O presidente da COP30 garantiu que a mensagem da Cúpula dos Povos será ouvida. “Eu registrarei amanhã (segunda, 17/11), na abertura da reunião de alto nível da COP”, prometeu Corrêa do Lago, que chegou a Universidade Federal do Pará (UFPA) acompanhado da diretora executiva da conferência, Ana Toni.

Foram dois mais de dois anos de construção coletiva, com mais de 1.100 organizações signatárias e representações de todos os continentes. Durante a semana, passaram cerca de 20 mil pessoas por dia no campus da UFPA, além de 23 mil credenciados.


O cacique Raoni, na Cúpula dos Povos: “É nossa missão defender a vida da Terra e de todos os seres” (Foto: Tânia Rego / Agência Brasil)

Das ruas à COP30

A Cúpula dos Povos é uma vitória dos movimentos sociais. Originalmente, o governo queria que fosse feita uma COP Social, a exemplo do que propôs no G20 quando criou o G20 Social. Os movimentos sociais não aceitaram, porque queriam construir um processo autônomo e não submetido a tutela governamental. Não só conseguiram fazer o governo desembarcar dessa ideia, como construíram o maior evento paralelo a COP30.

“Os movimentos sociais estão muito antenados. Vai ficar feio sair daqui sem nada nas mãos”, pontuou Mareen Santos, cientista política e representante do Grupo Carta de Belém e da FASE no Comitê Político da Cúpula dos Povos.

O cacique Raoni, símbolo mundial da defesa da floresta e dos povos originários, também esteve presente à cerimônia de encerramento da Cúpula dos Povos: “Se não defendermos o que resta da Terra, haverá um caos muito grande”, disse a liderança indígena nacional e internacional.

Ele à responsabilidade coletiva diante da crise climática. “Há muito tempo venho alertando sobre aquilo que hoje estamos vivendo. Os rios estão secando, a chuva não vem, o ar está cada vez mais difícil de respirar. Se não tivermos consciência de defender o que resta dessa Terra, haverá um caos muito grande”, disse Raoni.

O líder indígena reforçou a necessidade de diálogo com governos e pediu ações imediatas contra o desmatamento, garimpo e exploração ilegal. “Devemos dizer aos que querem destruir que não aceitaremos mais essa atitude. É nossa missão defender a vida da Terra e de todos os seres.”


Após ler mensagem do presidente Lula, a ministra Marina Silva discursa na Cúpula dos Povos: “não há nada grandioso que se possa fazer sem a participação da sociedade” (Foto: Tânia Rego / Agência Brasil)

Também estiveram presentes na cerimônia de encerramento da Cúpula dos Povos um conjunto de ministros. O secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, anunciou que será realizada consulta pública prévia e informada aos povos do Rio Tapajós sempre que algum projeto de infraestrutura for se instalar na região.

O anúncio foi muito bem-vindo, até porque ele é uma demanda antiga dos territórios atingidos pelos grandes empreendimentos. A decisão do governo, no entanto, nada mais é do que uma obrigação, dado que o governo é signatário da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a consulta está revista no artigo 169. Boulos também anunciou que será criada uma mesa de diálogo para analisar questões levantadas pelos indígenas e comunidades tradicionais durante a COP30.

Duas vitórias resultaram da pressão dos movimentos sociais, especialmente após o bloqueio feito pelo povo Munduruku na último sexta (14/11) na entrada da COP. A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, que também esteve presente, comentou que 900 indígenas estão credenciados na Zona Azul e ressaltou que é a maior participação indígena da história das COPs. Por isso, disse: “Nós não queremos só paridade, queremos ser a maior voz nos espaços de decisão”, destacou.

A ministra Marina Silva também aproveitou o espaço para celebrar a democracia, reforçando que que “não há nada grandioso que se possa fazer sem a participação da sociedade”. A ministra destacou ainda que o Brasil assume, na COP30, o compromisso de liderar transformações que só serão possíveis com responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e comunidades, especialmente as que historicamente têm sido afetadas pela crise climática. “O bom da democracia é que ela existe para que possamos dizer sim ou não. Mas tem coisas para as quais não tem como dizer não. Não tem como dizer não à ciência, à própria democracia e à verdade”, discursou.

fonte: https://projetocolabora.com.br/ods13/cupula-dos-povos-entrega-carta-a-presidencia-da-cop/

 

Cúpula das Infâncias: crianças e adolescentes enfrentam mudanças climáticas e ameaças aos territórios

Encontros envolvendo 600 crianças e adolescentes fizeram parte da Cúpula dos Povos; movimento entregou carta à Presidência da COP30 e ministros

Por Micael Olegário | ODS 13
Publicada em 17 de novembro de 2025 - 09:54  -  Atualizada em 17 de novembro de 2025 - 13:22
Tempo de leitura: 10 min

Crianças e adolescentes da Cúpula da Infância com ministros e o presidente da COP30: entrega de carta com um pedido para crescer num mundo bonito “sem medo e com esperança” (Foto: Alex Ferro / COP30)
 

(De Belém, Pará) – “Todas as infâncias importam”. Este é um dos lemas da Cúpula das Infâncias, evento que integra a programação da Cúpula dos Povos. “Tudo o que a gente está falando é real, estamos vivendo e passando por isso todos os dias de nossa vida”, afirma Izabelly Lobato dos Santos, 15 anos, moradora da Ilha do Capim, em Abaetetuba (PA).

A determinação e o equilíbrio na voz de Izabelly impressionam, porém o seu relato revela uma infância saqueada pelo avanço da crise climática e do dito “desenvolvimento”. De um lado, o calor que aflige os pescadores da comunidade, de outro, um projeto da empresa multinacional Cargill de instalar um terminal portuário na ilha.

Na camiseta, Izabelly carrega o convite do VI Grito das Águas, manifestação realizada anualmente na Ilha do Capim, contra o empreendimento. Ainda que não se lembre com detalhes de como tudo começou, Izabelly se recorda dos protestos e da resistência. “É o espaço em que debatemos e colocamos as injustiças climáticas que acontecem dentro do nosso território.

Leu essa? COP30: jovens impactados pela crise climática propõem alternativas

Na Cúpula das Infâncias, Izabelly pretende amplificar esse grito pela natureza e pelo Rio Caratateua, parte de sua identidade. “Quando estou aqui na Cúpula ou lá dentro do Parque da COP30, sempre lembro das pequenas crianças do meu Rio. Eles iriam estar felizes em estar aqui. Como eles não estão, eu vou estar aqui por eles”, afirma a jovem ribeirinha.

 

Além de Izabelly, a Cúpula das Infância reuniu mais de 600 crianças e adolescentes em diversas atividades culturais, painéis e mesas de debate na Universidade Federal do Pará (UFPA). O objetivo principal foi construir uma carta, entregue neste domingo (16/11) à Presidência da COP30, quando também houve a apresentação da carta da Cúpula dos Povos. 

Izabelly integra grupo de jovens da Cáritas Brasileira Regional Norte II; jovem descreve impactos da crise climática na Ilha do Capim (Foto: Micael Olegário)

Empreendimento ameaça 72 ilhas

O Terminal de Uso Privado (TUP) que a Cargill pretende construir faz parte de um esforço da multinacional em expandir para a foz do Rio Tocantins a logística de transporte de grãos que desenvolve no Rio Tapajós. Segundo dados da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), a implantação do porto impactaria 72 ilhas de Abaetetuba e 24 Projetos Agroextrativistas (PAEs), afetando o bem-viver de 70 mil pessoas.

Em julho de 2023, uma decisão do Ministério Público Federal (MPF) suspendeu o empreendimento, apontando indícios de grilagem de terras. Além disso, as comunidades das ilhas denunciam o não cumprimento dos protocolos de consulta livre e esclarecido, conforme determina a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Helder Barbalho e Lula não podem falar pela gente, porque eles não vivem e não sentem o que a gente passa todos os dias

Izabelly Lobato
Jovem ribeirinha

“A invasão de balsas está só aumentando dentro da nossa comunidade. Eles falam que vão oferecer emprego e alguns jovens acreditam nisso”, conta Izabelly. Segundo ela, mesmo com a suspensão pela justiça, a pressão sobre os territórios continua. Para a jovem, a Cúpula das Infâncias é um espaço para falar e mobilizar outros jovens a também resistir.

Como acontece na maioria dos empreendimentos de empresas como a Cargill, o projeto desconsidera a relação das comunidades com os seres mais-que-humanos (Rios, Florestas, Plantas e Animais). “Quando a gente faz rodas de conversas com as crianças, a gente pergunta o que você mais gosta de fazer, eles respondem: tomar banho e brincar no Rio”, enfatiza Izabelly.

A jovem ribeirinha integra o Cáritas Brasileira Regional Norte, movimento que luta por direitos sociais, vinculado à Cáritas Brasileira e à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Durante a Cúpula das Infâncias, a Cáritas promove debates sobre diferentes violações de direitos contra crianças e adolescentes, desde questões que envolvem disputas de terra até a violência física e sexual.


Crianças das ilhas de Abaetetuba durante o VI Grito das Águas; comunidade luta contra empreendimento que ameaça o bem-viver no território (Foto: João Pinto/Instagram)

Impactos do calor

Com a voz embargada, Izabelly descreve outra ameaça crescente à comunidade da Ilha do Capim: as ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes. “Gosto muito de conversar com meu avô. A gente senta na mesa e ele começa a contar: ‘minha filha, antes, a gente saía para pescar até sem camisa e suportava. Hoje, a gente não suporta mais”, relata a jovem.

Uma outra consequência do aumento médio da temperatura global, tema primário que motiva ou deveria motivar os debates da COP30, está nos reflexos disso nos próprios peixes. “Meu avô passa o dia inteiro e, às vezes, chega sem nenhum peixe. Outras vezes, até com a rede rasgada, porque o navio passou por cima, porque uma balsa passou por cima”.

Crianças e adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis às mudanças climáticas. Um dos espaços em que isso é mais percebido é nas próprias salas de aula. “Na escola é um dos lugares que eu mais sofro todos os dias. Tem ventilador, mas funciona até duas horas. E o calor é insuportável”, conta Izabelly. Esse estresse térmico impacta diretamente a capacidade de aprendizagem dessas crianças e adolescentes.


Apresentação da Orquestra Ribeirinha Amazônica (ORA) durante a Cúpula das Infâncias; grupo trabalha com crianças da Ilha do Combu (Foto: Micael Olegário)

Música e Carta

Um dos primeiros projetos a se apresentar no palco da Cúpula das Infâncias foi a Orquestra Ribeirinha Amazônica (ORA), iniciativa que trabalha com aulas de percussão musical com crianças da Ilha do Combu, uma das mais de 40 ilhas de Belém (PA). O projeto é voluntário e se sustenta por meio de doações. As canções são compostas pelos dois responsáveis, Gabriel Paixão e Nazareno Gomes, em conjunto com as crianças. As letras valorizam aspectos locais e a ancestralidade amazônica: “Eu vou tomar / Eu vou tomar / Um tacacá / Eu vou tomar / Eu vou tomar / Um açaí”.

Professor da UFPA e coordenador da Cúpula das Infâncias, Salomão Hage critica a perspectiva “adultocêntrica” das discussões da COP30. Ao todo, mais de 120 organizações integram as programações do evento e organizam as demandas das infâncias. “A carta tem a finalidade de afirmar para o mundo que justiça climática e bem viver só são possíveis com a participação de crianças e de adolescentes”. destaca Salomão.

Izabelly diz não estar confiante em resultados relevantes na COP30, afinal de contas, já são 30 edições de encontros que estão longe de trazer respostas efetivas para a crise climática. “Helder Barbalho e Lula não podem falar pela gente, porque eles não vivem e não sentem o que a gente passa todos os dias”.

Apesar disso, a primeira Cúpula das Infâncias da história das COPs serve para ecoar as vozes de crianças e adolescentes, como sujeitos de direitos. “Espero que essa carta leve exatamente o que a gente está falando, porque tudo o que falamos é real”, complementa a jovem líder.

carta da Cúpula das Infâncias, documento elaborado pelas cerca de 600 crianças e adolescentes que participaram de atividades na Cúpula dos Povos, foi entregue às autoridades brasileiras e afirma que, eles temem pelo futuro e pedem ações práticas para conter a crise de emergência climática. “Para que as próximas crianças e adolescentes não tenham medo do calor, da fumaça, da falta de água, da extinção dos animais. Para que elas possam desenhar florestas vivas e não florestas morrendo”, diz trecho da carta.

“Somos muitos e muitas crianças e adolescentes, cada uma com um jeito, um desenho, uma fala, um sonho. Mas todas com o mesmo ideal, por dentro do nosso planeta, agora, queremos continuar vivos e vivas, crescer no mundo bonito, no mundo que ainda respire, com esperança e sem medo”, continua o documento

Cópias da carta foram entregues em mãos ao embaixador André Correa do Lago, presidente da COP, a Ana Toni, CEO da Conferência, e aos ministros Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), Sônia Guajajara, (Povos Indígenas) e Guilherme Boulos (Secretaria Geral da Presidência. “Enquanto essas crianças falavam, me veio a imagem de quem começou a trabalhar muito cedo, com 5 anos. Eu era magrinha. Com 10 anos começamos a cortar seringa. Tudo isso me faz refletir que, só na democracia, o seringueiro, o indígena podem chegar aonde chegamos”, disse a ministra Marina.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

fonte: https://projetocolabora.com.br/ods13/cupula-das-infancias-criancas-e-adolescentes-enfrentam-crise-climatica-e-ameacas-aos-territorios/

Carta da Cúpula dos Povos marca encerramento com pautas urgentes da Amazônia

 

Documento final entregue à presidência da COP30 critica falsas soluções, responsabiliza transnacionais pela crise climática e convoca povos do mundo a se organizarem por justiça ambiental e social

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 Publicado: 16 Novembro, 2025 - 16h17 | Última modificação: 17 Novembro, 2025 - 12h02

Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini

 Naira Leal
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Cúpula dos Povos, evento paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), terminou neste domingo (16) com um ato político que reuniu de pessoas de diversos territórios do Brasil e do mundo. Ponto alto do ecenrramento foi a leitura pública da carta final intitulada Declaração da Cúpula dos Povos rumo à COP30 , documento que sintetiza as denúncias, propostas e agendas construídas ao longo dos cinco dias de atividades com o acúmulo político das mais de 1,3 mil organizações participantes. A carta foi entregue, logo em seguida, ao presidente da COP30, André Corrêa do Lago. A CUT esteve presente em todo o processo e integrou a leitura do documento, representada pela presidenta da CUT-Pará, Vera Paoloni.

O encerramento foi acompanhado também pelo cacique Raoni Metuktire, liderança histórica dos povos indígenas do Brasil, que há décadas denuncia a destruição ambiental e o avanço de violações contra povos originários. Em sua fala, Raoni lembrou que ele alerta para a crise ambiental desde muito antes de o tema ocupar a agenda global. “Há muito tempo eu vinha alertando sobre o problema que, hoje, nós estamos passando, de mudanças climáticas, de guerras”, afirmou. Ele convocou os movimentos presentes a seguirem mobilizados: “Peço que possamos dar continuidade a essa missão de defender a vida da Terra, do planeta. Que tenhamos essa continuidade de luta contra aqueles que querem destruir a nossa terra”, disse.

Veja imagens do ecenrramento

 

Carta final convoca organização global dos povos e denuncia falsas soluções

A leitura da carta política da Cúpula, feita de forma coletiva por representantes de diversos movimentos, marcou o tom do encerramento: um chamado à ação, à solidariedade internacional e ao enfrentamento direto às estruturas que alimentam a crise climática. A presidenta da CUT-Pará, Vera Paoloni, participou desse momento e recitou um trecho central do documento, que resume o espírito do encontro:

“A nossa tarefa política principal é o trabalho de organização dos povos em todos os países e continentes. Vamos enraizar nosso internacionalismo em cada território e fazer de cada território uma trincheira de luta internacional. É tempo de avançar de modo mais organizado, independente e combativo para aumentar nossa consciência, força e combatividade. Agora eu vou dizer e vocês vão repetir: Povos do mundo, unidos. Povos do mundo, uni-vos”.

O texto denuncia as “falsas soluções” apresentadas por governos e corporações para enfrentar a emergência climática, especialmente aquelas baseadas em mecanismos de mercado que não alteram a lógica de exploração dos territórios. O documento afirma que a crise climática é resultado direto do modo de produção capitalista, responsável por aprofundar desigualdades, impor violência aos povos e provocar degradação ambiental em escala global.

A carta aponta ainda que as comunidades periféricas, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, trabalhadores rurais e populações negras são os grupos mais impactados pelos eventos climáticos extremos, consequência direta do racismo ambiental e da desigual distribuição de poder e recursos.

Leia aqui a DECLARAÇÃO DA CÚPULA DOS POVOS RUMO A COP30

Responsabilização das transnacionais e reivindicações para transição justa

Um dos eixos centrais do documento é a responsabilização clara das corporações transnacionais — mineradoras, empresas de energia, indústria bélica, agronegócio e Big Techs — pela catástrofe climática. A carta defende que não haverá transição justa sem enfrentamento direto à concentração de riqueza, à exploração dos territórios e às estruturas que criminalizam povos e movimentos sociais.

Entre as reivindicações apresentadas estão:

  • demarcação imediata de terras indígenas e de outros povos tradicionais;
  • reforma agrária e fortalecimento da agroecologia;
  • fim do uso de combustíveis fósseis;
  • taxação das grandes corporações e dos mais ricos para financiar a transição justa;
  • participação direta dos povos nas decisões climáticas;
  • fim das guerras e das intervenções imperialistas;
  • valorização dos saberes ancestrais como referência legítima para soluções climáticas.

A carta dedica parte substancial à crítica aos conflitos e guerras em curso no mundo, com denúncia explícita do genocídio contra a Palestina e solidariedade às populações que resistem a intervenções militares, inclusive no Caribe e na África. O documento afirma que o imperialismo segue ameaçando a soberania dos povos e instrumentalizando conflitos para manter privilégios econômicos e geopolíticos.

Autoridades recebem a carta e assumem compromissos

O encerramento contou com a presença das ministras Sônia Guajajara (Povos Indígenas) e Marina Silva (Meio Ambiente e Clima), além do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que recebeu oficialmente a carta.

Boulos anunciou que a Secretaria-Geral abrirá uma mesa de diálogo permanente com os povos do Tapajós, para assegurar participação direta antes da implementação de qualquer projeto na região. Para ele, a democracia exige escuta ativa e protagonismo dos territórios.

Sônia Guajajara ressaltou que acolher a carta é reconhecer a centralidade dos povos na defesa da vida. “A democracia é feita com participação do povo, com escuta e compromisso”, afirmou.

Marina Silva reforçou que o país enfrenta uma emergência climática. “O que foi feito até agora não tem sido suficiente, porque o clima já mudou”, disse.

André Corrêa do Lago, presidente da COP30, comprometeu-se a apresentar o documento nas reuniões de alto nível que terão início nesta segunda-feira (17).

CUT reforça papel estratégico da classe trabalhadora

Ao longo da Cúpula, a CUT participou de diversos debates, inclusive como parte do Eixo 3, dedicado à crítica aos modelos econômicos vigentes e aos impactos da transição energética. Nesse espaço, representantes de diferentes países denunciaram a captura corporativa da agenda climática e defenderam que a transição deve ser conduzida com democracia, soberania dos povos e garantia de direitos trabalhistas.

No debate, a secretária nacional de Meio Ambiente da CUT, Rosalina Amorim, lembrou que comunidades periféricas continuam excluídas dos processos decisórios e que a transição não pode se transformar em nova forma de desigualdade. O Eixo 3 serviu como exemplo da diversidade de debates que compuseram a Cúpula e do papel da CUT na defesa de uma transição justa orientada pelos povos.

Participação massiva e encerramento com banquetaço popular

A Cúpula dos Povos reuniu cerca de 70 mil pessoas de movimentos sociais locais, nacionais e internacionais, povos indígenas, trabalhadores urbanos e rurais, população em situação de rua, juventudes, mulheres, população LGBTQIAPN+, pescadores, quilombolas, marisqueiras e diversos outros grupos que formam a pluralidade da Amazônia e do Sul Global.

A abertura teve uma grande barqueata pela Baía do Guajará, e o encerramento contou com um banquetaço popular na Praça da República, preparado por cozinhas comunitárias e acompanhado de apresentações culturais abertas ao público.

A carta final sintetiza esse espírito de pluralidade e afirma: “Nossa visão de mundo está orientada pelo internacionalismo popular, com intercâmbios de saberes que constroem laços de solidariedade e cooperação entre nossos povos”.

Com informações do Governo Federal e da Agência Brasil

fonte: https://www.cut.org.br/noticias/carta-da-cupula-dos-povos-marca-encerramento-com-pautas-urgentes-da-amazonia-3e50

 

Nós, da Cúpula dos Povos, reunidos em Belém do Pará, na Amazônia brasileira, de 12 a 16
de novembro de 2025, declaramos aos povos do mundo o que acumulamos em lutas, debates,
estudos, intercâmbios de experiências, atividades culturais e depoimentos, ao longo de vários meses
de preparação e nestes dias aqui reunidos.

Nosso processo reuniu mais de 70.000 pessoas que compõem movimentos locais, nacionais
e internacionais de povos originários e tradicionais, camponeses/as, indígenas, quilombolas,
pescadores/as, extrativistas, marisqueiras, trabalhadores/as da cidade, sindicalistas, população em
situação de rua, quebradeiras de coco babaçu, povos de terreiro, mulheres, comunidade
LGBTQIAPN+, jovens, afrodescendentes, pessoas idosas, dos povos da floresta, do campo, das
periferias, dos mares, rios, lagos e mangues. Assumimos a tarefa de construir um mundo justo e
democrático, com bem viver para todas e todos. Somos a unidade na diversidade.

O avanço da extrema direita, do fascismo e das guerras ao redor do mundo exacerba a crise
climática e a exploração da natureza e dos povos. Os países do norte global, as corporações
transnacionais, e as classes dominantes são os maiores responsáveis por essas crises. Saudamos
a resistência e nos solidarizamos com todos os povos que estão sendo cruelmente atacados e
ameaçados pelas forças do império estadunidense, Israel e seus aliados da Europa. Há mais de 80
anos, o povo palestino tem sido vítima de genocídio praticado pelo Estado sionista de Israel, que
bombardeou a faixa de Gaza, deslocou pela força milhões de pessoas e matou dezenas de milhares
de inocentes, a maioria crianças, mulheres e idosos. Nosso repúdio total ao genocídio praticado
contra a Palestina. Nosso apoio e abraço solidário ao povo que bravamente resiste, e ao movimento
de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS).

Ao mesmo tempo, no mar do Caribe, os Estados Unidos intensificam sua presença imperial.
Fazem-no expandindo operações conjuntas, acordos e bases militares, em conluio com a extrema
direita, sob o pretexto de combate ao narcotráfico e ao terrorismo, como com a operação recém
anunciada “Lança do Sul”. O imperialismo segue ameaçando a soberania dos povos, criminalizando
movimentos sociais e legitimando intervenções que historicamente serviram aos interesses privados
na região. Nos solidarizamos à resistência da Venezuela, Cuba, Haiti, Equador, Panamá, Colômbia,
El Salvador, República Democrática do Congo, Moçambique, Nigéria, Sudão, e com os projetos de
emancipação dos povos do Sahel, Nepal e de todo o mundo.

Não há vida sem natureza. Não há vida sem a ética e o trabalho de cuidados. Por isso, o
feminismo é parte central do nosso projeto político. Colocamos o trabalho de reprodução da vida no
centro, é isso que nos diferencia radicalmente dos que querem preservar a lógica e a dinâmica de
um sistema econômico que prioriza o lucro e a acumulação privada de riquezas.

Nossa visão de mundo está orientada pelo internacionalismo popular, com intercâmbios de
conhecimentos e saberes, que constroem laços de solidariedade, lutas e de cooperação entre nossos
povos. As verdadeiras soluções são fortalecidas por esta troca de experiências, desenvolvidas em
nossos territórios e por muitas mãos. Temos o compromisso de estimular, convocar e fortalecer
essas construções. Por isso, saudamos o anúncio da construção do Movimento Internacional de
Atingidas e Atingidos por barragens, pelos crimes socioambientais e pela crise climática.

Iniciamos nossa Cúpula dos Povos navegando pelos rios da Amazônia que, com suas águas,
nutrem todo o corpo. Como o sangue, sustentam a vida e alimentam um mar de encontros e
esperanças. Reconhecemos também a presença dos encantados e de outros seres fundamentais
na cosmovisão dos povos originários e tradicionais, cuja força espiritual orienta caminhos, protege
territórios e inspira as lutas pela vida, pela memória e por um mundo de bem viver.

Depois de mais de dois anos de construção coletiva e de realizar a Cúpula dos Povos,
afirmamos:
1. O modo de produção capitalista é a causa principal da crise climática crescente. Os
principais problemas ambientais do nosso tempo são consequência das relações de produção,
circulação e descarte de mercadorias, sob a lógica e domínio do capital financeiro e das grandes
corporações capitalistas.

2. As comunidades periféricas são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos e o
racismo ambiental. Enfrentam, por um lado, a ausência de políticas de infraestrutura e de
adaptação. Por outro, a falta de ações de justiça e reparação, em especial às mulheres, jovens,
pessoas empobrecidas e não brancas.

3. As empresas transnacionais, em cumplicidade com governos do norte global, estão no
centro de poder do sistema capitalista, racista e patriarcal, sendo os atores que mais causam
e mais se beneficiam das múltiplas crises que enfrentamos. As indústrias de mineração, energia,
das armas, o agronegócio e as Big Techs são as principais responsáveis pela catástrofe climática
em que vivemos.

4. Somos contrários a qualquer falsa solução a crise climática que venha a perpetuar práticas
prejudiciais, criar riscos imprevisíveis e desviar a atenção das soluções transformadoras e
baseadas na justiça climática e dos povos, em todos os biomas e ecossistemas. Alertamos que o
TFFF, sendo um programa financeirizado, não é uma resposta adequada. Todos os projetos
financeiros devem estar sujeitos a critérios de transparência, acesso democrático, participação e
benefício real para as populações afetadas.

5. É evidente o fracasso do atual modelo de multilateralismo. São cada vez mais recorrentes os
crimes ambientais e os eventos climáticos extremos que ocasionam mortes e destruição. Isto
demonstra o fracasso das inúmeras conferências e reuniões mundiais que prometeram resolver
esses problemas, mas nunca enfrentaram as suas causas estruturais.

6. A transição energética está sendo implementada sob a lógica capitalista. Apesar da
ampliação das fontes renováveis, não houve redução nas emissões de gases de efeito estufa. A
expansão das fontes de produção energética acabou por se configurar também como um novo
espaço de acumulação de capital.

7. Finalmente, afirmamos que a privatização, mercantilização e financeirização dos bens
comuns e serviços públicos contrariam frontalmente os interesses populares. Nestes
marcos, as leis, instituições de Estado e a imensa maioria dos governos foram capturados,
moldados e subordinados à busca do lucro máximo pelo capital financeiro e pelas empresas
transnacionais. São necessárias políticas públicas para avançar na recuperação dos Estados e
enfrentar as privatizações.

Frente a esses desafios, propomos:

1. O enfrentamento às falsas soluções de mercado. O ar, as florestas, as águas, as terras, os
minérios e as fontes de energia não podem permanecer como propriedade privada nem serem
apropriados, porque são bens comuns dos povos.

2. Cobramos que haja participação e protagonismo dos povos na construção de soluções
climáticas, reconhecendo os saberes ancestrais. A multidiversidade de culturas e de
cosmovisões, carrega sabedoria e conhecimentos ancestrais que os Estados devem reconhecer
como referências para soluções às múltiplas crises que assolam a humanidade e a Mãe Natureza.

3. Exigimos a demarcação e proteção das terras e territórios indígenas e de outros povos e
comunidades locais, uma vez que são quem garantem a floresta viva. Exigimos dos governos o
desmatamento zero, o fim das queimadas criminosas, e políticas de Estado para restauração
ecológica e recuperação de áreas degradadas e atingidas pela crise climática.

4. Reivindicamos a concretização da reforma agrária popular e o fomento à agroecologia, para garantia da soberania alimentar e combate à concentração fundiária. Os povos produzem alimentos saudáveis, a fim de eliminar a fome no mundo, com base na cooperação e acesso a
técnicas e tecnologias de controle popular. Esse é um exemplo de verdadeira solução para
combater a crise climática.

5. Demandamos o combate ao racismo ambiental e a construção de cidades justas e periferias vivas através da implementação de políticas e soluções ambientais. Os programas de moradia, saneamento, acesso e uso da água, tratamento de resíduos sólidos, arborização, e acesso à terra
e à regularização fundiária, devem considerar a integração com a natureza. Queremos o
investimento em políticas de transporte público, coletivo e de qualidade, com tarifas zero. Essas
são alternativas reais para o enfrentamento da crise climática nos territórios periféricos no mundo
todo, que devem ser implementadas com o devido financiamento para adaptação climática.

6. Defendemos a consulta direta, a participação e gestão popular das políticas climáticas nas cidades, para o enfrentamento às corporações do setor imobiliário que têm avançado na
mercantilização da vida urbana. A cidade da transição climática e energética deverá ser uma
cidade sem segregação e que abrace a diversidade. Por fim, condicionar o financiamento climático
a protocolos que visem a permanência habitacional e, em última instância, a indenização justa
para pessoas e comunidades com garantia de terra e moradia, tanto no campo quanto nas
cidades.

7. Exigimos o fim das guerras e a desmilitarização. Que todos os recursos financeiros destinados
às guerras e à indústria bélica sejam revertidos para a transformação desse mundo. Que as
despesas militares sejam direcionadas à reparação e recuperação de regiões atingidas por
desastres climáticos. Que sejam tomadas todas as medidas necessárias para impedir e
pressionar Israel, responsabilizando-o pelo genocídio cometido contra o povo palestino.

8. Exigimos a justa e plena reparação das perdas e danos impostos aos povos pelos projetos
de investimento destrutivos, pelas barragens, mineração, extração de combustíveis fósseis e
desastres climáticos. Também exigimos que sejam julgados e punidos os culpados pelos crimes
econômicos e socioambientais que afetam milhões de comunidades e famílias em todo o mundo.

9. Os trabalhos de reprodução da vida devem ser visibilizados, valorizados, compreendidos como o que são – trabalho – e compartilhados no conjunto da sociedade e com o Estado.
Esses são essenciais para a continuidade da vida humana e não humana no planeta. Isso também
garante autonomia das mulheres, que não podem ser responsabilizadas individualmente pelo
cuidado, mas devem ter suas contribuições consideradas: nosso trabalho sustenta a economia.
Queremos um mundo com justiça feminista, autonomia e participação das mulheres.
10. Demandamos uma transição justa, soberana e popular, que garanta os direitos de todos os
trabalhadores e trabalhadoras, bem como o direito a condições de trabalho dignas, liberdade
sindical, negociação coletiva e proteção social. Consideramos a energia como um bem comum
e defendemos a superação da pobreza e da dependência energética. Tanto o modelo energético,
quanto a própria transição, não podem violar a soberania de nenhum país do mundo.

11. Exigimos o fim da exploração de combustíveis fósseis e apelamos aos governos para que
desenvolvam mecanismos para garantir a não proliferação de combustíveis fósseis, visando uma
transição energética justa, popular e inclusiva com soberania, proteção e reparação aos territórios.
Em particular na Amazônia e demais regiões sensíveis e essenciais para a vida no planeta.

12. Lutamos pelo financiamento público e taxação das corporações e dos mais ricos. Os custos da degradação ambiental e das perdas impostas às populações devem ser pagos pelos setores
que mais se beneficiam desse modelo. Isso inclui fundos financeiros, bancos e corporações do
agronegócio, do hidronegócio, aquicultura e pesca industrial, da energia e da mineração. Esses
atores também devem arcar com os investimentos necessários para uma transição justa e voltada
às necessidades dos povos.

13. Exigimos que o financiamento climático internacional não passe por instituições que
aprofundam a desigualdade entre Norte e Sul, como o FMI e o Banco Mundial. Ele deve ser
estruturado de forma justa, transparente e democrática. Não são os povos e países do Sul global
que devem continuar pagando dívidas às potências dominantes. São esses países e suas
corporações que precisam começar a saldar a dívida socioambiental acumulada por séculos de
práticas imperialistas, colonialistas e racistas, pela apropriação de bens comuns e pela violência
imposto a milhões de pessoas mortas e escravizadas.

14. Denunciamos a contínua criminalização dos movimentos, a perseguição, o assassinato e desaparecimento de nossas lideranças que lutam em defesa de seus territórios, bem como aos
presos políticos e presos palestinos que lutam por libertação nacional. Reivindicamos a ampliação
da proteção de defensores e defensoras de direitos humanos e socioambientais na agenda
climática global, no marco do Acordo de Escazú e outras normativas regionais. Quando um
defensor protege o território e a natureza, ele não protege apenas um indivíduo, mas todo um
povo e beneficia toda a comunidade global.

15. Reivindicamos o fortalecimento de instrumentos internacionais que defendam os direitos dos povos, seus direitos consuetudinários e a integridade dos ecossistemas. Precisamos de um instrumento internacional juridicamente vinculante em matéria de direitos humanos e empresas
transnacionais, que seja construído desde a realidade concreta das lutas das comunidades
atingidas pelas violações cometidas, exigindo direitos para os povos e regras para as empresas.
Afirmamos ainda que a Declaração dos Direitos Campesinos e de Outras Pessoas que Trabalham
nas Áreas Rurais (UNDROP) deve ser um dos pilares da governança climática. A plena
implementação dos direitos camponeses devolve o povo aos territórios, contribui diretamente para
a sua alimentação, para o cuidado do solo e o esfriamento do planeta.

Por fim, consideramos que é tempo de unificar nossas forças e enfrentar o inimigo comum.
Se a organização é forte, a luta é forte. Por esta razão, a nossa tarefa política principal é o trabalho
de organização dos povos em todos os países e continentes. Vamos enraizar nosso
internacionalismo em cada território e fazer de cada território uma trincheira da luta internacional.
É tempo de avançar de modo mais organizado, independente e unificado, para aumentar nossa
consciência, força e combatividade. Este é o caminho para resistir e vencer.
“Povos do mundo: Uni-vos”